terça-feira, 29 de março de 2016

Esse ano o rally dos sertões foi de barco.

            O Maranhão sempre apronta das suas. Ou eu sou muito azarado quando venho pra cá. O fato é que uma folga de dois dias a 200km de distância dos lençóis maranhenses soou como uma oportunidade imperdível. E lá se foram os cinco manés... de novo apertados num carro e de novo numa estrada que parecia a superfície lunar.  Como a idéia era gastar o mínimo possível, acabamos no hostel do hippie careca com dreads. Rapidinho descobrimos um passeio que envolvia pickups 4x4. E é engraçado pensar que andar nas dunas balançando na caçamba de uma pickup era mais confortável que andar no pseudo asfalto. 

               Impossível falar dos lençóis maranhenses sem lembrar que o sertão vai virar mar e o mar vai virar sertão. Uma imensidão de dunas em formato de ondas que o vento vai mexendo pra lá e pra cá e a chuva enche de vida em lagoas da cor do céu.  Eu não sei como o sertão vai ficar quando virar mar. Mas se o mar virar sertão.. é exatamente daquele jeito que ele vai ficar. 


            Ouvi um canto estranho e enxergo um sabiá. E saio eu cantarolando Cordel do Fogo Encantado.

"O sabiá no sertão
Quando canta me comove
Passa três meses cantando
E sem cantar passa nove
Porque tem a obrigação
De só cantar quando chove"

             Já de volta ao hostel encontro o Jorge, um viralata simpático que me fez sorrir. Com ele encontrei um outro cusco que me ignorava solenemente e ficava brincando com os cadarços dos meus tênis. Chamei ele de cadarço.



           No dia seguinte, o hippie geriátrico arrumou um passeio de lancha no qual ele  seria o guia. E é aí que as coisas ficam interessantes. Mas antes uma pausa para o café da manhã que consistia em pão com margarina. No barco os cinco manés. E o bob marley do baixíssimo orçamento pilotando a bagaça. O barco também seguia essa premissa do orçamento reduzido e devido a isso, ele tinha um design diferente. Passei toda viagem tomando água na cara. Eu devia ter imaginado quando vi que o piloto estava usando um óculos de sol que mais parecia um E.P.I. Mas veja bem, não tomei respingos normais de viagens em pequenos barcos. Parecia que estavam me jogando baldes de água. Fora isso, tenho que admitir que os lugares que ele nos levou são fantásticos. Subi em um farol e depois acabei numa faixa de areia de uns 200 metros de largura com o mar de um lado e o rio de outro. 


           E é aí que começa a parte engraçada, enquanto eu fazia as pazes com o mar e rabiscava a areia - porque não existe uma praia que eu vá sem que o mar me escute falar do mesmo assunto - o  hippie achou por bem encher a cara de cerveja. Quando chegou a hora de ir embora ele começou a se enrolar teorizando coisas sobre a maré e reclamando que a gasolina ia acabar na volta. No meio dos absurdos que eu ouvi ele conversando com os locais estava uma forma de mudar a praia de alter do chão de lugar para evitar que ela sumisse. O tempo foi passando e  com a noite bombando subimos o rio no escuro com o mano dirigindo com os pés. Não quero entrar em detalhes, mas acabei descobrindo que quem tem havaianas e boa vontade não precisa de remos. Só não beijei o chão quando voltei pra areia porque estávamos quase irremediavelmente atrasados. Me despedi do jorge e do cadarço e pé na estrada. 


           Na entrada de São Luis vi o impensável. Imagine uma capital de um estado que possui 1 única entrada. E imagine que essa entrada seja uma pista simples de mão dupla toda esburacada. Chegou um ponto em que a polícia rodoviária simplesmente bloqueou quem estava tentando sair e liberou as duas pistas para quem estava entrando na cidade. Ou seja: quem queria sair simplesmente não podia. E quem estava entrando podia desviar dos buracos usando a contramão também. 

              Às vezes ter folga dá trabalho.

sexta-feira, 25 de março de 2016

Mapas do acaso

             Ano passado encontrei o amazonas cheio.. e arrogante. E grande. Brigamos muito e sem a ajuda da chuva, não teria conseguido nada dele. Mas agora encontrei ele menor. E ele também me encontrou diferente. De certa forma eu também estou menor. Nosso encontro ano passado foi mais solene, mais duro e formal. Esse ano foi como duas crianças brincando. E eu tomei banho no maior rio do mundo enquanto sentia ele levando embora tudo de ruim que ainda pesava em mim ultimamente. A cada mergulho a cura do meu animismo ia se tornando mais efetiva. Um índio num barco faz uma piada sobre eu ter asas e nadar. A minha resposta veio antes que eu sequer pensasse nela "sobrevive quem se adapta". E nisso está meu foco. É demasiado tarde para fingir ser forte. Talvez tudo que possa ser feito agora é reconhecer minha capacidade de me adaptar. Tenho feito isso há anos, mas nunca achei que isso seria tão importante.

          Um arco e flecha sempre foi uma das minhas formas preferidas de meditação. O jeito de mirar não mirando... o cálculo empírico de intuição que se faz pra compensar a gravidade e o vento. E aquele momento em que tento provocar o disparo pq estou perdendo o fôlego. É tão parecido com o jeito que toco. Tão parecido com quase tudo que faço, na verdade. Saudade de ter um instrumento musical na mão e tocar. Sinto tanta falta.

          Perdi a lua cheia por causa das nuvens, mas o anoitecer entrou pro meu campeonato de ironias. No leste eu via uma tempestade se formando enquanto meu barco se dirigia pra ela. E no oeste o sol ia se pondo alheio a tudo. Se o rio  Tapajós tivesse um signo, certamente ele seria de gêmeos.  E entrei debaixo da chuva cantando cordel do fogo encantado. 

"Home is a state of mind"

         No meio da madrugada uma ligação tira meu sono. Do outro lado da linha uma voz que me lembra que nada chega perto. E minha senhora faz o que melhor lhe cabe: manda em mim. Eu tenho uma folga em abril e posso voltar pra casa. Mas apareceu uma oportunidade de ir pra Minas Gerais com meu palhaço preferido. Aqui dentro segue um debate sobre me desprender e não voltar.. aproveitar uma oportunidade que talvez nunca apareça de novo. ¿Mas e se ir pra minas for apenas uma fuga? E se for apenas o velho vento maquiando de coragem uma atitude covarde.? 

Âncora?
Vela.?
Qual me leva?
Qual me prende?
Mapas e bússolas
Sorte e acaso
Quem sabe? do que depende?

        De qualquer forma, por mais que eu diga que nada mais me prende à Caxias, a ligação de ontem me lembrou que sim, há ainda uma coisa que me prende àquela cidadezinha. 

quarta-feira, 23 de março de 2016

Big Brother Conexão


          Queria poder dizer que foi de repente e sem aviso. Mas a verdade é que tudo era mais ou menos previsível e foi se construíndo aos poucos sem segredo nenhum. Bastava prestar um pouco de atenção aos detalhes para perceber que era inevitável. Fora as câmeras e o prêmio, eu estou no big brother. Com todas as intriguinhas, com todas as tentativas de manipulação.

       Queria também poder reclamar que está ruim. Mas a verdade é que estou me divertindo muito. As vezes estou lendo livros e as vezes estou lendo pessoas. As conversas ficam cheias de entrelinhas e preciso estar sempre atento para não ser manipulado. Estou no meio do furacão e sei que eventualmente vou ter que tomar um partido, mas até lá, fico aqui observando e aprendendo. Sou leal a mim mesmo e não preciso escolher um lado nesses termos.

           E acabo em situações estranhas. Quando me arrebento e preciso de ajuda, acabo indo tomar cerveja com quem não gosta de mim e tenho uma daquelas conversas que eu chamo de pega-peixe. Não gosto de dar meus problemas pras pessoas que gosto. Então os inimigos vão ter que servir. Tenho uma dificuldade imensa em lidar com pessoas que gostam de mim. mas com quem não gosta eu aprendi a lidar hace mucho tiempo.

             No fim, tenho o bar do Jair como um confessionário. Tenho a mente serena.

domingo, 20 de março de 2016

Isso não se ensina...

          É sempre bom ter um palhaço por perto. Sabendo disso, o mundo fez com que eu atravessasse o Brasil com um palhaço sempre ao alcance. Nesse meu trabalho eu mesmo sou meio palhaço - independente das tragédias da vida a gente precisa subir no palco e passar uma mensagem de alegria. E sempre que eu trabalho com o Luís eu lembro disso. Não que a gente tenha uma vida triste ou cheia de tragédias, mas não importa o perrengue que esteja acontecendo atrás das cortinas, quando elas se abrem a gente está sorrindo. Pra mim não é tão fácil, mas eu sigo as deixas dele e não há outra opção senão seguir com o espetáculo. E eu fico brincando com sons e luzes do mesmo jeito que ele faz malabarismo e piruetas. Quando a cortina abre e as luzes se acendem, nós estamos em casa.

           Era só pra gente trabalhar juntos e se aguentar, mas acabamos virando amigos. E esse filho de Logun Edé se tornou meu palhaço favorito.

             Valeu Luís!!!

terça-feira, 15 de março de 2016

Aborta o protetor solar.

         Nunca cansa de me surpreender essa capacidade do mundo me dar uma voadora com os dois pés no peito justamente quando eu acho que está tudo bem. E não me cansa de me surpreender minha total incapacidade de prever o óbvio.

          Minhas asas não foram feitas pra voar tão alto, ao que parece. Ou talvez eu ainda seja aquele verme que fingia mandar no céu que a Lisi precisou jogar penhasco abaixo para aprender a voar. Ou talvez eu tenha medo e não tenha mais força.

           Mas no fim eu misturo 3 partes iguais de tristeza, raiva e desprezo por mim mesmo e sinto que meu cérebro segue pelo caminho lógico: ele entra no modo vento.

segunda-feira, 14 de março de 2016

Eu não posso mudar

      Na saída da rodoviária encontrei o hippie chileno que me apelidou de vento. E eu me divirto pensando em quanto trabalho o acaso deve ter pra fazer como que eu e ele nos encontremos sempre que é mais necessário. Antes de encontrá-lo eu ansiava por coragem. Depois da nossa conversa eu não precisava mais de coragem, só precisava de discerni-mento para fazer meu trabalho. O mesmo trabalho que o hippie chileno havia me explicado muitos anos atrás.

        A Dona Morte passa por caxias e eu já estava na estrada, não pude fazer nada pra diminuir o estrago que ela fez. E quando a gente se sente impotente diante de uma situação, acaba aprendendo um pouco mais sobre si mesmo. No meu caso, eu percebi que, mesmo sendo impossível roubar a dor dos outros pra que eles não sofram, é possível dividir a dor para que o sofrimento seja menos doído. Se eu não tivesse sido tão arrogante achando que era forte pra aguentar a dor dos outros, teria percebido isso antes. 

      Na viagem pra Floripa vi uma prenda e um pedido de desculpas. De longe eu fui acompanhando o que acontecia... de certa forma torcendo pra um final feliz.  

        Decolei de Floripa embaixo de um dilúvio, mas em cima das nuvens reinava uma paz sem igual. Um mar de nuvens de algodão. Ao que parece, até o caos de uma tempestade pode ser relativo. Não vôo muito, mas depois de tudo, eu já vejo a parte de cima das nuvens como um lugar familiar.

                     

       Em alter do chão fiquei muito tempo tentando entender como a maré funcionava naquele lugar. ¿Qual seria a mágica que mantinha aquela praia naquele formato no meio do rio.? Acabei não descobrindo nada. Uma folha cai na água ou passa um  barco e as ondas mudam de sentido. Há um padrão ali eu sei, mas não estou pronto ainda pra perceber..

          E enquanto ficava jogando pedras na água e rabiscava vetores e direções na minha cabeça, a lua nova ia fazendo seu caminho no céu. E de repente tudo que eu sabia sobre a lua e suas nuances mudou. Eu entendi como a lua persegue o sol quando nova e como foge dele na minguante. Ao que parece, esse padrão eu estava pronto pra entender. 

       No ônibus da volta da praia o mundo ainda estava diferente. E eu entendi o que precisava fazer para encontrar a paz que tanto procuro. Com muita clareza eu percebi que ainda não estava pronto. Mas fiquei feliz ao saber que pode haver salvação pra mim. 

          Subindo o amazonas num catamarã, o splash da água contra o casco formou um arco íris que nos seguiu por uma tarde inteira. E não importa se você vê aquelas 7 cores como um fenômeno físico ou um caminho até o pote de ouro...um arco iris sempre me faz pensar que as coisas estão no seu devido lugar.


E uma pessoa me pergunta se eu sou gaúcho no meio do amazonas. Fiquei me perguntando como ela havia descoberto e ri de mim mesmo. Eu estava com um crachá de gaúcho na mão.

segunda-feira, 7 de março de 2016

Não se chega até as nuvens com os pés no chão

             Eu escrevia poesias em carteira de cigarro. Escrevia lembretes em guardanapos. Era um ritual muito meu, mas eu era muito amador. Não tinha nem papel e nem caneta comigo ...acabava dependendo da sorte para encontrar caneta naqueles segundos em que eu precisava escrever. ou naquele fim de noite em que eu desdobrava uma carteira de marlboro light e escrevia até não sobrar espaço no papel.

            Voltei com esse meu velho hábito, mas agora ando com um bloco e com uma caneta no bolso. As palavras tem o tempo delas e gosto da ideia de estar preparado. Continuo escrevendo minhas cartas que não mando. tipo essa:

            Tem um episódio do house que ele está num volta e não volta com a ex-mulher dele. O problema é que ela está com outro cara... mas mesmo assim o house e ela acabam ficando juntos. Esse outro cara está numa cadeira de rodas e como ele não sabe de nada, em determinado momento do episódio ele vai pedir conselhos pro House. O house tenta fugir dele subindo uma escada e o cara sai da cadeira de rodas e se arrasta atrás do House. E ele acaba entendendo que esse outro cara está disposto a ir muito mais longe que ele. Está disposto a sacrificar muito mais para que o amor dele e da ex do house funcione.  

               Tá, perdi um pouco o foco, mas enfim. Falei desse episódio específico porque ele é uma boa forma de demonstrar um dilema que todos nós temos. ¿Pelo que vale a pena sofrer? O quanto vale a pena sofrer por aquilo que acreditamos.? Até onde estamos dispostos a ir.?

             São perguntas filosóficas e que fazem pensar, mas admito que num sentido prático elas não ajudam muito. E acho que comecei a escrever justamente porque quero ajudar. Talvez caiba aqui uma metáfora, que rabisquei numa carteira de cigarro amassada já faz um tempo.

             Ela quer ser protegida e não servida. Por mais que ela banque a forte, ela não quer ser a rainha do castelo com poder para mandar e desmandar mesmo sem ter razão. E pessoas para servi-la ela tem aos montes e vai usar a todos conforme for necessário. Ela é a princesa rebelde que precisa de um santuário de paz para descansar de ser princesa. E é nesse lugar que tu tem que estar. Protegendo ela dela mesma e dos defeitos que ela tem vergonha de confessar até a si mesma.

           Ser o melhor de nós é fácil. Somos só dois idiotas fora dos padrões e com uma visão de mundo meio amoral. Perto de nós tu leva uma larga vantagem. O fato é que pra ficar com ela. Pra fazê-la feliz e, mais do que isso, pra ti ser feliz... tu vai ter que ser o melhor de ti.




terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

Um vida loca sensível


        E, da mesma maneira que as melancias vão se ajeitando conforme a carroça anda, o mundo vai girando e colocando tudo no seu devido lugar.

        "No final será como sempre foi: as grandes coisas para os grandes, os abismos para os profundos, as branduras e tremores para os sutis e, em suma, tudo que é raro para os raros." - FN

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

É só uma questão de tempo.

          Entre o sonho absurdo do Dom Quixote com a Dulcineia e os avisos que eu estava berrando para os surdos, eu teria uma tonelada de coisa para escrever sobre. Mas há coisas que um homem não deve confessar nem a si mesmo. 

A loucura faz com que o caos soe seguro e familiar. 
Mas não sou louco o bastante para me apegar a essa sensação.





domingo, 31 de janeiro de 2016

GMT +1 seria suficiente

            Fico pensando porque os pensamentos gritam tanto nas madrugadas, considerando o quanto elas são silenciosas. Já pesquisei algumas vezes pra qual fuso horário tenho que ir para conseguir ligar para as pessoas daqui as 3 da manhã sem ter que acordar ninguém. Mas aí me lembro que sou teimoso e fico lambendo minhas feridas sozinho quando me machuco. Ou corro pra ver o mar. Soluções diferentes mas é a mesma fuga. Já desisti de buscar apoio nos outros. E já nem acho isso ruim. Os meus me ajudam de outras formas. Quando me arrebento no chão me levanto sozinho e nem acho que isso seja ruim. A solidão é relativa e sempre aparece alguém desconhecido ou alguém que eu não esperava pra me colocar na estrada de novo.

         Tem uma frase escrita a lápis nas primeiras páginas de um livro que eu sempre folheio quando me sinto perdido: "Nunca fuja por medo." Que bom que eu achei isso suficientemente importante para anotar. E que bom que eu me conheço o suficiente para escrever numa das paredes da minha rota de fuga padrão.

       Tão patético como quem deixa a janela do quarto aberta antes de fazer uma tempestade. Como todas as vezes que pedi desculpas sabendo que não estava errado. Como essas madrugadas que fico tocando quase em silêncio sem ter ninguém pra acordar.

sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

A um passo de uma caipira.


           Duas coisas me fazem ir no médico. Uma delas é febre. Depois de passar uma noite torto de febre, colei no plantão. Quando a mulher da triagem me perguntou porque eu estava lá, segurei o sorriso de quem teve uma boa ideia e, ainda parecendo um zumbi, respondi com ar pastoso. - "Olha, parecia uma gripe, mas agora acho até que é dengue". A enfermeira fez cara de assustada e eu sabia que tinha dado certo. Em exatos 12 minutos eu estava sentando na frente do médico. OK, era gripe e alergia num combo tipo aquelas lutas do mortal kombat. ele só receitou antialérgico quando eu disse que estava me sentindo no meio de uma ressaca de vinho ruim e de derby vermelho. Não lembro bem da conversa, ainda estava rengo. mas lembro do médico pedir encarecidamente pra mim não beber até melhorar.

          Ironicamente, tem um garrafão de cachaça do lado do fogão e cada vez que vou esquentar água pros chás ou pro chimarrão eu dou de cara com ele. Eu devia tirar ele dali. Ah, mas eu devia fazer tanta coisa.  

            Eu só lamento nisso tudo não conseguir lembrar direito das viagens que tive quando a febre não me deixou dormir. Eu acordei com uma joaninha - o inseto - na mão. E com uma moeda dentro da cueca. Pergunto-me que tipo de alucinação eu estava tendo pra chegar nisso.


terça-feira, 26 de janeiro de 2016

Acho que dessa vez teremos que ir mais longe.


          Meu sistema respiratório implodiu. Queria poder dizer que peguei uma gripe e que a alergia tem fundamento, mas sabemos que é mais embaixo. Sempre me encanta isso dos problemas da mente estourarem no corpo. Meu eu lírico tem uma amiga chamada Carmem e eles vivem conversando sobre se é o corpo que reflete na mente ou se é a mente que influencia o corpo. Pra mim e pro meu eu lírico a mente é o vento e o corpo é areia. Pra saber pra onde vai a areia, basta ver a direção do vento. E no momento sou um saco de areia molhada com olheiras e mancando. Porque consegui arrebentar o joelho na festa de sábado. 

           E lá fora tá o caos. Eu tinha esquecido que ser amigo de um casal tem um problema grave. Caso um dia os dois terminem você fica mais perdido que cego em tiroteio tentando diminuir vazios que são, irremediavelmente, gigantescos. Como se o processo de olhar para dentro de si mesmo não fosse perigosos o suficiente sem vazios e sombras latentes. ¿E como faz quando tu tem dois poços de racionalidade e só tem vontade de pegar eles no colo e mentir que tudo vai ficar bem...até acreditar na minha própria mentira.

          E aqui dentro tá foda, mas eu lembro do Charlie.


"Se algum dia você sentir alguma coisa muito forte,
não importa se boa ou ruim,
e quiser falar pra alguém, não fale.
Beba uma dose."

           Não tenho álcool suficiente, mas erva mate moída grossa e meus livros tem ajudado. Se bem que não consigo ler direito por causa dos olhos lacrimejando por causa da gripe nível praga do Egito. E isso me irrita a ponto de conversar em voz alta comigo mesmo. Falando bem baixinho pra me irritar mais ainda enquanto caminho que nem o House pela casa. Sem conseguir achar graça em nada. 

Mas tá tranquilo.. tá favorável. Foi só uma velha ferida que abriu de novo. Daqui a pouco eu costuro e remendo tudo.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

Senta que lá vem história

            Quinta, 22. Ligar pontos é uma arte. e a gente nunca sabe como vai ligar os pontos do futuro com os de hoje. Lá por 97~98 eu comprei um vinil do nirvana, com a capa do nevermind. Eu aprendi a tocar ouvindo nirvana. E por todos esses anos esse vinil ficou grudado na parede em cima do monitor do meu computador. Eu olhei pra ele todos os dias quando estive em casa. E fiquei feliz em encontrar uma pessoa para a qual eu poderia dar ele de presente. Não que ele não signifique nada pra mim. Pelo contrário. Ele significa muito. Sobre tudo que passei para chegar até aqui. E justamente por isso dei ele de presente. 

               Fiquei o dia inteiro formulando em palavras uma teoria muito boa sobre porque eu não confio nas pessoas. Coerente e bem embasada, eu achei que ela poderia explicar tudo. Mas claro que entre uma bohemia e outra desconstruíram ela com duas frases. Tudo bem, de volta ao planejamento.

               Sexta, 23. Acordar tomando whisky de mel com pastelina pareceu tão normal que eu nem me importei. Ainda mais num dia que teria show da Blackbirds. E quando a Rubia reconhece meu trabalho na zoeira, eu sei que estou no caminho certo. O dia teve o cheiro e a inércia da quinta e eu acabava sorrindo leve. 

            Show pra perder a voz. A catarse que eu tanto venero. Patrícia, minha cerveja honorária. E las cocotas niegras tocando pedaços da minha vida. A teoria da véspera não importava mais e eu sinto um certo orgulho por estar conseguindo aprender a me desapegar. Eu sorria e cantava as músicas enquanto uma ausência me incomodava. Mas ninguém percebeu. 

                Sábado, 24 Os excessos da véspera cobraram o preço na forma de uma ressaca avassaladora. ¿Da onde apareceu aquele maldito litro de whisky.? Era meio dia e eu sabia que só conseguiria melhorar até a noite se investisse num tratamento severo a base de chimarrão. 2 térmicas depois eu estava pronto para a festa do vagão. Com cara de zumbi mas ainda disposto. 

                Vi a lua nascendo quando saí de casa. E em algum lugar aqui dentro eu sabia que iria dar de cara com ela de novo quando chegasse em casa.

               No meio da festa um amigo me chama e nem chega a me pedir ajuda, e sem hesitar eu sai correndo pra casa dele. Há uma hierarquia no mundo e quando um barão precisa de mim, não há nem o que pensar. O aristos e o mundo poderiam esperar. Eu compensaria com muita tequila depois.

                   O problema é que compensei com tequila demaaaaaais. E a festa acabou com o dia claro, não sem antes tomar um sacolé. Não sem antes ser coagido a ir pra Paris. Facilmente coagido, diga-se de passagem.

                 Dia claro e vi a lua no oeste, perto do horizonte, no caminho de casa. Acabei lembrando de um verão em que eu aprendi a ver estrelas. E aquela mesma lua devia ter rido de mim quando eu discutia comigo mesmo dizendo que a constelação de peixes parecia mais com uma panela de pressão do que com qualquer outra coisa.

                  E, no final, acho que lembrei do passado não por ter visto a lua. mas sim porque empreitadas como essa me fazem lembrar De quem fui. Do que eu era. Do que eu sou. E porque, apesar da aparência vazia de 3 dias diretos de festa e trago, era só um disfarce enquanto eu ia me desconstruindo e construindo de novo. Tijolo por tijolo.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

Something


        Eu lembro com uma certa nostalgia da época em que eu me arrumava com antecedência para as formaturas. EU tinha o terno separado na véspera, junto com um nó de gravata feito com esmero e paciência. Era uma época em que eu até usava sapatos. Hoje fico rindo e discutindo comigo mesmo quando percebo que entro no chuveiro faltado 20 minutos pra hora marcada para a janta. Quando olho pro terno e vejo um all star junto dele. Quando faço um nó de gravata em 15 segundos e não me importo por ele estar horrivelmente mal feito. 

               E enquanto amarrava o cadarço do all star e me esforçava pra defender a gravata da pasta de dente, eu ia me analisando no espelho. Meu olhar de medo/eu consigo. Uma formatura de psicologia seria muito divertida - não teria como não ser. O medo me deixaria mais alerta e freiaria a arrogância de saber que eu não tinha com o que me preocupar. Em última instância, o sorriso de uma criança que sabe que vai aprontar. Meu melhor sorriso canalha.

       Formaturas continuam sendo uma mistura de ansiedade, atribulação, uma cerimonialista louca lutando contra uma mesa de malucos que não se importam com o protocolo, emoções e sentimentos sinceros transbordando. 

                Pausa. Uma tatuagem de uma música dos beatles nunca fez tanto sentido. Tira o sorriso canalha e entra o sorriso bobo. ¿Essa ironia conta pra quem.? Play de novo. Força tarefa pra acabar com a cerveja do lugar. Foi por muito pouco. Anteninhas e cerveja de 600ml usadas como long neck. ¿É sempre assim né.? 

                 E psicólogos são todos loucos. E ainda estou lembrando da mulher da yogurteira Toptherm me mandando sentir minhas meias e meus ombros. E usando o Dmitri como referência.  Acho que alguém colocou drogas na bebida da galera.


               Renata, tem uma expressão que eu adoro usar: "conhecer desde sempre". Eu não sei quando ficamos amigos, mas quando olho pra trás eu não conto os anos. Simplesmente vejo os momentos importantes e parece que você sempre esteve, de alguma forma, perto. Desde sempre. Eu te chamo de baronesa, mas isso não tem quase nada a ver com o fato de chamar o teu namorado de Barão. Teu título de nobreza vem de outra coisa. Tu tem meu respeito e minha admiração -  mesmo tu sempre insistindo pra que eu faça terapia.  Sei bem que tu enxerga minha loucura kamikaze com curiosidade. Da mesma maneira que eu fico rindo das tuas reações enquanto me analisa. às vezes me esforço pra te irritar porque tu fica encantadora quando está com braba.. Obrigado por me deixar fazer parte dessa tua conquista. 


                 

P.S. Eu não fiz nada na festa. Só dei água para quem tinha sede. 


sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

Um fardo a menos no pulso

           Tudo bem,  Virgílio,  agora eu entendi o que você quer me dizer. Demorei 15 dias mas finalmente entendi. Eu te dei uma alma e tu me deste um caminho. E depois do que passamos, não sei mais dizer quem teve a idéia de se arrebentar para servir de exemplo. Talvez seja aquilo de saber que certas feridas não doem mais. Não depois de tudo.

Tantas vezes eu estava pela metade e tu me carregaste. Permita-me retribuir. 

             Entre um silêncio e outro e a gente vai se entender. Eu não acredito que um dia possa haver paz, mas talvez consigamos harmonia.

Erva mate pura folha - me costurar de novo sempre tem o gosto de erva mate pura folha.

sábado, 9 de janeiro de 2016

O baixo é meu.

          ¿Quantos dias se passaram.? Quantos anos se passaram.? Olho os desenhos que carregamos e fico pensando porque eles estão ali. ¿São cicatrizes.? São troféus.? A dor que eu sinto é por causa deles ou eles funcionam como uma bandagem.? São símbolos da minha força ou uma triste lembrança de quando fui fraco.? Até que ponto soamos melhor por causa deles. 

             Eu li que chineses consertam vasilhas de metal barato que se partem usando ouro. Talvez eles tenham entendido há milênios que consertar algo que se quebrou é muito mais difícil do que construir algo novo. ¿E o que faz a gente decidir o que precisa ser consertado e o que deve ser jogado fora e substituído.? É o apego.? É a necessidade.? A utilidade.? O valor que criamos.? Lembro do Tomás dizendo que "if you have it but you can't fix it.. you don't owe it." Montar e desmontar um instrumento musical - pintá-lo e personalizá-lo - foi um jeito de consertar a mim mesmo.? Porque sei que tocar bem é tocar bem a vida. Tocar melhor para viver melhor. A professora resiliência foi fundo quando ensinou. Estudar acordes e escalas pra poder ir de um silêncio a outro. E ficar tão viciado nesse processo a ponto de acreditar que os silêncios falam mais do que as palavras. ¿Ou isso é apenas o medo de ser mal interpretado falando.? 

              E meu baixo continua me fazendo todas essas perguntas nessas tardes quentes de verão. Não duvido de nada mas repenso tudo. É solidão, mas há tantos aqui. Pro bem e pro mal meus desenhos provam isso. Carrego os meus onde quer que eu esteja. Não sei se soamos melhor, mas certamente soamos mais verdadeiros. 

terça-feira, 5 de janeiro de 2016

A palavra que eu não lembrava era spes


Salve Regina

SALVE Regina, Mater misericordiae, vita, dulcedo, et spes nostra salve.
Ad te clamamus, exsules filii Hevae;
Ad te suspiramus, gementes et flentes in hac lacrimarum valle.
Eia ergo, advocata nostra illos tuos misericordes oculos ad nos converte.
Et Jesum, benedictum fructum ventris tui, nobis post hoc exilium ostende.
O clemens, O pia, O dulcis Virgo Maria.


Ora pro nobis, sancta Dei Genitrix.
Ut digni efficiamur promissionibus Christi.
Amen.


Salve Rainha

Salve, Rainha, mãe de misericórdia,
vida, doçura, esperança nossa, salve!
A vós bradamos os degredados filhos de Eva.
A vós suspiramos, gemendo e chorando
neste vale de lágrimas.
Eia, pois, advogada nossa,
esses vossos olhos misericordiosos a nós volvei,
e depois deste desterro mostrai-nos Jesus,
bendito fruto do vosso ventre,
Ó clemente, ó piedosa,
ó doce sempre Virgem Maria
Rogai por nós santa Mãe de Deus
Para que sejamos dignos das promessas de Cristo.

Há uma grande ironia no fato de eu esquecer justamente como se diz esperança em latim. 

sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

Só mudamos para continuarmos iguais.

O mesmo Virgílio que foi batizado por causa da sua função: servir de guia. 





A mesma espada, agora reforjada. A minha dualidade expressa num nível muito além das palavras. A madeira que talhei tentando encontrar o que sou. E o equilíbrio do yin- yang forjado como metal e chanfrado fora de centro.. Porque o equilíbrio é sempre moldado com dificuldade. E um foto com contraste estourado. Porque meu sorriso fica melhor com contraste estourado.

O mesmo texto. 

"O errante vagueia pela terra a procura da resposta para suas preces mais tenebrosas

Ela está para além de qualquer esperança - mas, no entanto, a salvação ainda é possível.

Mas ele não anda só. Com ele, memórias substituídas por tudos e nadas, gravados na pedra e no silêncio

Na sua posse uma espada de enorme poder, apenas ultrapassado pela força do seu espírito. Seu nome não importa. Os seus esforços não se destinam a transformá-lo no que ele não é.

Há também uma donzela. Há quem acredite que a donzela foi um sacrifício necessário, pois o seu destino estava amaldiçoado. Mas apenas um acredita que o seu sacrifício era o destino amaldiçoado de que eles falavam. E o  que liga os destinos destes dois personagens é uma verdade que permanece perdida para todo o sempre. Estão unidos pelos seus destinos, e para todo o sempre permanecerão ligados.

Por que? O que faz um mortal tentar o impossível.? Dizem que as almas, uma vez perdidas, não podem ser reclamadas. Mas, com essa espada, talvez não seja impossível

Tudo lança uma sombra. Quando uma entidade existe para além do reino mortal, os homens pouco mais vêem além de sombras. Mas há uma espada antiga. Sem ela, não será possível encontrar aquilo que o errante deverá vencer. E se não for encontrado, não poderá ser destruído.

Ilumina-a e ela iluminar-te-a."


Luis José Favero Neto, mil vezes obrigado. Pelo Virgílio e por mim. Por iluminar a minha espada. Por servir de exemplo. Por tudo e por nada. Forjar e manter o meu tênue equilíbrio tem sido mais fácil depois que ficamos amigos. E passar a mudança de ciclo tocando contigo foi o melhor jeito de começar o ano.

terça-feira, 22 de dezembro de 2015

Aquele velho navio

           No fim é isso. 3 da manhã e eu escrevendo. Nunca soube dormir mesmo. Certas coisas me derrubam, e do chão eu alcanço o violão pra tocar sempre as mesmas músicas. As madrugadas foram feitas pra pensar. Pra desabafar com as paredes e sentir mais forte, mas acima de tudo pra pensar.


sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

Milongueando uns troços

        Quando o Barão me chama pra cerveja e janta as 23h, eu sempre acho normal. Temos um imenso histórico de madrugadas de trabalho, resenha e filosofia. E chegou um ponto que marcamos um café as 2h da manhã  com a mesma naturalidade que as pessoas normais marcam cafés no fim da tarde. E dessa vez a pauta era certa, o show do Pink Floyd da véspera. Porque o tio David é o coração da banda. E, com todo respeito, nem o muro nem o Roger Watters fizeram falta. 

            Quando o Barão abriu a porta a gente se olhou nos olhos e sorriu. O mesmo brilho diferente em ambos. Eu confirmei minha teoria que nenhum músico seria o mesmo depois de assistir aquele amável senhor inglês. E falamos do show como músicos, como fãs e como pessoas. Eu fico admirado desse poder que a música e só a música tem. A mágica de fazer um estádio inteiro cantar. A humildade de um gigante. A paz de espírito e a satisfação de 50 mil pessoas.

            Mas claro que a conversa foi além. Aniversário do Beethoven. Toca a 5ª sinfonia- só os riffs - e Moonlight Sonata. Não sei bem como chegamos na comparação entre mitologia e música. A dualidade que permeia todos os arquétipos. A mesma entre tensão e repouso do sistema tonal. E o cérebro da gente é tonal, como bem se sabe. Dualidade entre a simplificação de tudo e a relação espiritual que temos com a música. Pessoas, notas, coisas, fatos, acordes, histórias. 

            2015 tá se puxando nessa finaleira. Vamos que ainda tem mais.


           

              E, por Deus, como eu senti falta das nossas conversas.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

Menos duas coisas da lista. Segura 2015 que ainda dá.

        Depois do show, as pessoas me diziam que tinha sido muito bom. Mas é claro que foi espetacular. ¿Esperavam o que de um cara que tocava no Pink Floyd.? As músicas do novo CD são muito boas e depois de começar o show com elas, ele pegou um violão e mandou o o sol maior mais negovéio de todos..E de repente tinha um estádio berrando Wish you were here.

         No fim de high hopes ele repete o refrão duas vezes. E depois ele faz um solo de lap steel. Na primeira nota eu estava chorando. Estava arrepiado. Eu não acreditava que era possível tanto. Eu estava feliz não só pór mim, mas todos os que eu conheço que estavam lá vendo e ouvindo a mesma coisa e sentindo a mesma coisa

         Sobre a luz ela é tão foda, mas tão foda que eles se dão ao luxo de usar o lazer só durante as duas músicas do bis. Eles emendaram Time e Confortably numb pra terminar. E digo eles porque a banda não é deste planeta. 

           Por fim eu queria dizer que depois do show de ontem, sempre que eu ouvir a palavra poder. Sempre que eu pensar no que é poder... A imagem que vai se formar na minha cabeça é de um amável senhor inglês segurando uma fender preta na mão.

Ah. E teve uma garota num vestido amarelo.


           E sempre vou me sentir agradecido por ter assistido o show do David Gilmour numa noite quente em Porto Alegre.


segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

Calma 2015, ainda temos alguns quehaceres

          Anos tentando estabelecer um código sob o qual viver cobram o seu preço.

          Incontáveis vezes repeti para mim mesmo que tudo era possível porem nem tudo era me conveniente. Depois aperfeiçoei: "Nada é verdade. Tudo é permitido". É impossível dizer que nada é verdade sem soar pessimista, mas depois de tantos tombos e tropeços, acho até coerente que meu realismo soe pessimista. A falta de esperança ajuda. Quase enlouqueci tentando ponderar o que era condizente ou não. O que deveria fazer sendo que tudo seria permitido. Onde poderia me apoiar já que nada era suficientemente verdade para que eu pudesse confiar.

           Eu lembro que nas piores crises houve sempre uma mulher que me puxou pela mão e me colocou de volta nos trilhos. Agora que a minha irmã voltou - ela foi a melhor melhor de todas em me colocar nos trilhos - não posso deixar de me preocupar com o futuro. Tem uma tempestade no horizonte e mesmo sorrindo, não sei direito onde os ventos vão me jogar.
Pode até ser que os dragões sejam moinhos de vento. Tomara.

sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

Alguns compassos são infinitos


        No meio da tarde eu olho pra mesa de som do mesmo jeito que olhava pro meu tabuleiro de xadrez. Fico com um pincel limpando ela e ajeitando as configurações como cuidava com o posicionamento das peças, bem no meio das casas. O nome da cena que crio diz muito "seguindo os passos" . Eu só estava ali por gentileza e esforço meu e de tantos que me ensinaram tanto. E em cada botão da mesa de som eu vejo a mesma mítica que antes tiveram os peões. De cada um eu sei o caminho e sei o porque. E quero que tudo soe bem assim como quero que todos encontrem a redenção no fim do tabuleiro.

           Eu acredito em planejamento e em erva mate moída grossa, mas mesmo com essas duas coisas, quando olhava pra trás as pernas perdiam um pouco a firmeza e meu coração balançava.  De qualquer forma era só mais um pretexto para fazer o que faço de melhor. Eu discutia comigo mesmo enquanto ia desenhando elefantes nos gráficos de frequências O fato é que há um momento, um momento em que alquimia da música bate forte. Quando tudo está no seu devido lugar. É algo que deveríamos apenas ouvir, mas que é tão forte que é impossível não sentir com os outros sentidos também. E nesse momento, quando o som ficava bom comigo e apesar de mim, eu sorria e ficava invisível. Às vezes eu faço música como uma equação. Às vezes soa como mágica. 

     Uma luz vermelha pisca e me coloca em xeque. "Vai até onde dá". Assim me ensinaram, assim eu trabalho. Nesse limiar entre risco e segurança a vida é melhor. Aumentava o volume do P.A. como quem pisa mais forte no acelerador. 

         Entre um show e outro, sinto meus pensamentos gaguejando em 3 línguas diferentes. Mas depois de ser canalha em inglês e espanhol, lembro que palavras são só palavras, independente do código delas

         E de trás de um quilt e um sorriso, já de manhã, veio uma daquelas frases que definem muito "Alguns entram de cabeça em tudo e outros entram de cabeça em nada". E de cabeça meio baixa, com o meu sorriso leve, pensei em todos que haviam entrado de cabeça na realização daquele festival. E todos todos todos tiveram a sua importância, desde o Bob Stroger até o segurança que me filava cigarros. 


Bob Strogeer e Headcutters no meu palco.

            Impossível citar todos, mas não posso deixar de citar alguns. Fher Costa, Babi, João, Monta, The Headcutters, Marcela, Tita, Rubia, Jeane, Gabi, Bledo, Kiko, Aguina, Lisi, Eduardo Hidromel, Faccioli, Sagui, Gabi, Mestre Kalifa. A cada festival que passa eu aprendo muito, não só sobre o meu trabalho, mas sobre o tipo de pessoa que eu quero ser. De coração, muchas gracias.

domingo, 22 de novembro de 2015

Uma noite auspiciosa

         O pensamento começou a tomar forma enquanto anoitecia. Eu estava numa sacada diferente. Numa cidade diferente. Mas ainda assim me sentia em casa. A metáfora sobre ser como água. Manter o conteúdo enquanto se adapta a forma que se apresenta. Eu voltaria a esse mesmo assunto mais tarde. 

         Festa diferente mas muitos rostos conhecidos. Eu me sentia bem vindo. Todos que trabalhavam comigo: Jeane, Giovane, Marcelo, Rubia, Kiko, Jonas, Leo, Cris, Dani, Fran. Em cada abraço um milhão de histórias, que eu vou resumir na palavra cumplicidade. Não sinto falta do vagão, da noite, dos trâmites. É dessas pessoas que sinto falta. Daquela sensação de pertencer a uma família sem laços sanguíneos, mas com todo o resto.

         De volta ao sentimento de estar em casa. Escorado no balcão encontro o Poletto. Entre outras coisas ele é um baita exemplo de como viver a vida de forma honrada e leve. Aquele cara que seria reitor de uma hipotética universidade de caráter, caso fosse possível ensinar. Um dos caras que eu chamo de amigo com orgulho. Ele conseguiu colocar em palavras o que eu queria dizer desde a sacada e não sabia como "home is a state of mind".

            Depois de tantas pessoas que me fizeram mal, vejo todas essas pessoas boas que permanecem ao meu redor e não fico mais me questionando se mereço ou não. No fim, é só o universo empatando o jogo.  

sexta-feira, 20 de novembro de 2015

Ainda tenho a tua guia.

           Depois de uma madrugada de tendinite pelo meu exagero, ouvindo o som da chuva e contando segundos entre o raio e o trovão, resolvi escrever. Estou sempre escrevendo cartas que nunca vou mandar. Estou sempre querendo ajudar os meus. De alguma forma, acho que ajudando os outros ajudo um pouco a mim mesmo. E entendo um pouco mais meus próprios dilemas. No fundo as pessoas são todas iguais, e as dúvidas tem sido um problema.

           Para explicar o que eu quero dizer, eu poderia falar sobre uma conversa entre Deus e Elias no meio da guera entre Israel e Síria - sim, tem guerras lá desde sempre. Ou poderia contar uma conversa de Exu e Iemanjá no aniversário dela. Mas o fato é que ninguém conseguiu explicar tão bem quanto o Gandalf, falando pro Aragorn e pro Faramir. "O que nos protege do poder total de Sauron não é o fato de estarmos com o  um anel e sim ele não saber onde está o anel. Ele tem dúvidas e o olhar dele fica indo e vindo por toda a terra média, procurando de forma repetida e ineficaz. Quando ele tiver certeza, estando ou não estando em poder do Um anel, nós seremos dizimados."

          Foi esse trecho do livro Senhor dos Anéis que me fez perceber como não se focar faz mal.  Mesmo o Sauron sendo praticamente um X-men, o poder dele era diminuído por ele não poder lutar uma guerra sem dúvidas. O  que nos traz de volta as nossas mensagens. O que tu me falou é uma situação familiar para qualquer um: Existe uma escolha simples e complicada, mas ela é difícil e ficamos adiando. O resultado quase sempre é o mesmo, a falta de ação preserva quem está perto enquanto vai nos corroendo por dentro. Até um ponto insustentável onde a vida nos coloca num ponto onde não há mais escolha e nem lição a ser aprendida. Posso falar pois já passei por isso mais de duma dezena de vezes. 

            Nosso passado não chega nem perto de passar uma ideia de sensatez, mas tu é uma das pessoas mais sensatas que conheço, apesar de ter uma estupidez latente que às vezes atrapalha teu discernimento. Queria que houvesse aqui uma receita mágica para ver o futuro e escolher melhor baseado nas consequências, mas infelizmente não tem. E também não tenho moral nenhuma pra te dar conselhos - e sabemos bem que conselhos no fim do ano tendem a ser o caos instaurado. Pensa bem e que teus pensamentos sejam iluminados para que tu decida o melhor. Vou ficar aqui, sempre pronto pra te ouvir quando ou se tu precisar. E torcendo pelo melhor.

Não porque eu tenho contigo uma dívida impagável, mas sim porque tu é tu.

Fica bem, serenidade e paz.

V.  

sábado, 14 de novembro de 2015

Depois que eu descobri o caminho

          O que você diz de um cara que ganha R$3.400.000,00 num projeto federal e não quer gastar RS100,00 numa diária a mais de hotel pra toda equipe guardar as coisas e poder tomar um banho depois de encerrar a desmontagem da estrutura.? Graças a essa grande economia, a vida na cadeia chegou no nível máximo e acabei por tomar banho numa bica. Agora a única coisa que falta fazer é revesar camas para dormir. Inacreditável.


            Começar uma empreitada nova é bom, mas terminar é melhor ainda. E mais um ciclo que variou entre uma marchada épica e um aprendizado impressionante acabou. Ficam as amizades e a lições que só a estrada e a convivência forçada dão. A vida do baile, basicamente.

            Nesses 4 meses aprendi a ser palhaço. Não usei maquiagem, mas o sorriso que mantive nas crises funcionou como máscara. E no fim, o que define um palhaço é justamente isso: a capacidade de passar uma mensagem de alegria, independente dos problemas e das tragédias do mundo. Conheci lugares que nunca imaginei e pessoas que me surpreenderam nas mais variadas formas. Não poderia usar um adjetivo diferente de "loucos" pra definir as pessoas que trabalharam comigo. Aprendi que conviver é o próprio inferno e que tolerância não é tão fácil na prática quantona teoria. Mas sobrevivemos. E agradeço aqui quem me aguentou na viagem, quem me deu força antes da partida e quem ficou esperando eu voltar.


              E com um anjo e um jasmim a menos, com a bagagem muito mais leve, eu poderia colocar a música do U2 " I still haven't found what I'm looking for" aqui. Mas em vez disso, cito blackbirds. Porque quando o sorriso fraquejava e eu começava a esquecer quem eu sou eu catava um canto sossegado, enfiava um fone de ouvido e abria um livro até voltar pro equilíbrio. E blackbirds foi meu despertador todos os dias da viagem. 

              E se alguém me perguntar como eu volto dessa empreitada de 4 meses, 9 estados, 16 cidades... bom, essa música em especial resume tudo. 



Agora eu volto com ar glacial
Mais forte que nunca, um tanto meio anormal
Um pouco mais vivo, não olho pra trás
quando não sou mais bem-vindo


Talvez eu esteja revirando o fundo,
vivendo meu mundo e seus absurdos
Mas é muito chão para andar então

Vamos lá...

domingo, 1 de novembro de 2015

The orange is the new black


         E chega-se em Anita Garibaldi. Um lugar onde ser gaúcho não significa praticamente nada. Se eu pular um muro estou de volta à República. Cidades pequenas normalmente tem um ou dois hoteís, por isso não cabe muito escolher ou reclamar. O cara do hotel é simpático e me chama de piá. Um sorriso e eu me sinto em casa. Claro que há um Zé Buceta atuando fortemente para que a estadia na cadeia seja ainda pior. Mas é só pensar que faltam apenas duas semanas e nem isso consegue me tirar do prumo.



         Todo mundo tem uma pessoa por perto que está sempre complicando, querendo ter o controle de tudo. Essa pessoa é o Zé Buceta. Sendo insuportavelmente chato enquanto tenta sempre mostrar que é o fodão. Sempre tentando estragar a alegria dos outros. Nada é bom, só o que ele gosta, nada presta, só o que serve pra ele. Se ele é infeliz, todos também tem que ser. Não passa de um bosta. Nessa viagem, eu tenho o meu. E ele pensa que é meu chefe. Não que eu seja especial, ele acha que é o chefe de todo mundo. Não que ele pegue exclusivamente no meu pé. Ele é um idiota com todos, do caixa do mercado ao dono do hotel.

       Meu querido Zé buceta. Não são os artistas que vão colocar no meu rabo quando puderem. É tu e os da tua laia. Mas eu te entendo. A alegria dos outros torna tua inveja e teu rancor muito mais evidentes. E isso te irrita a ponto de tu nem conseguir disfarçar. A lealdade alheia te incomoda porque no teu íntimo tu sabe que ela não te envolve.  Ninguém dá a mínima pra tuas regras e desmandos. E chega a ser engraçado tu falar mal de todos para todos como se ninguém fosse perceber.  Lamento informar, mas tu não tem um rei na barriga e todo mundo tá te vendo cuspir pra cima.  E digo mais, torcendo pra cair de volta em ti.

quinta-feira, 29 de outubro de 2015

Tatarana

         Esse vai ser um daqueles.

           Limpa o desktop. Apaga as cartas que não vou enviar nunca pra caber outras novas. Eu nunca sei quando escrever. Eu nunca sei qual é o tempo do que escrevo. Um começo, um meio e um foda-se. O por do sol é roxo e laranja porque ele pode. Rabisca a carta pro Zé Buceta, entrego depois. Não cambia nada. Sem usar óculos 1 e 3 são iguais. Memória boa é o inferno. Finjo que esqueço. Não convenço ninguém. De presente vou dar um anjo - mas já é dela.  Durmo quando a cabeça cansa. O corpo não se importa. Imitão. As palavras não saem porque minto ou porque é verdade.?? Não faço parte mas eu sei... e também sei que temos que se preservar.  A de azul ouve RZO. Tequila, um sorriso canalha, ajuda e um plano, tudo no seu lugar. De amor eu não morro, vcs consagraram o estilo cachorro. Ironia é eu ser amigo da mais puta. ¿Ela me entende.? Tá, tem outra mais puta que todas. Certo que ela traiu, eu saberia mesmo sem ler o livro. Um franja me salva. Não existe salvação para nós. Seguimos. Amor sem confiança não é nada. um copo vazio de mim mesmo.

        Piso numa flor de jasmim sem pena. Nada de vingança ou justiça. Punição. Uma chave de fenda não se faz perguntas sobre o caráter ou a finalidade dos parafusos. O budismo manda aceitar e a inteligência manda irritar. Crucifico o ego em doses homeopáticas. Equilíbrio pressupõe risco. Nem li o contrato mesmo. Tudo lhes é possível, porém nem tudo lhes convém. Filipenses 4, 13. Exu é o senhor dos caminhso cruzados. Humanos, demasiado humanos. ¿Mas vou ler sem sublinhar de que jeito? Eu ganho pela cor do trigo. Vai a onda vem a nuvem. ¿Oceano, agendam-se consultas.? Uma formiga vermelha picando minha mão até cansar. ¿Não poderíamos ter criado uma metáfora melhor.? Lembrei. Não sou importante.

           Aaahhhhh! Much better...

sábado, 24 de outubro de 2015

O dharma tem várias formas

         Sou apaixonado pelos meus livros, cada um deles tem sua importância na minha vida, ainda assim, sempre que sinto que um determinado livro é o que a pessoa precisa ler num determinado momento, empresto ele sem hesitar. Emprestar talvez não seja a palavra, já que raramente alguém me devolve e eu preciso comprar o mesmo livro de novo. Mas enfim, lendo a gente descobre sozinho o que não aceitaria se uma outra pessoa dissesse pra gente. Certo tipo de conhecimento tem que vir dentro pra fora e não o contrário. E da mesma maneira que eu emprestou meus livros, emprestam livros pra mim. A família espiritual se ajuda de maneiras que nem consigo explicar. E eu percebo que as vezes não sou eu que encontro os livros mas sim os livros que me encontram.


          Estou há quase 3 meses longe de casa. E os livros tem um papel determinante nesse período. Sem eles eu já teria enlouquecido. Então, um muchas gracias especial pra Jeane, que no fim da noite mais caótica do ano me deu um lugar pra dormir de manhã e ainda me deixou roubar a doutrina de buda do hotel. E pro Luís, o meu palhaço preferido, que me emprestou a mitologia dos orixás antes mesmo de ler e que, do jeito dele, está sempre me ensinando alguma coisa.

              E, já que estou agradecendo, não poderia deixar de agradecer ao Alan, por me ter percebido bem rápido que eu sou estranho e ter me aguentado estoicamente. E a Carla, que me deu um marcador de páginas que sempre me faz sorrir. 

quarta-feira, 21 de outubro de 2015

No fim, tudo é como a água.

         Se por um lado ganho uma folga de algumas horas, por outro de novo não consigo dormir. Pelo menos chove e isso de certa forma me anima um pouco. Foi bom tomar um banho de chuva na piscina.  

         Adoro o som do mar,  o som da chuva. O som de mato. Mas, sem dúvida, o som quem mais me dá ideia de folga é o som que os chinelos fazem quando a gente caminha devagar arrastando eles. E eu sempre arrasto os chinelos quando estou tentando descansar.

        Mulheres são interessantes. Para elas, não pode estar tudo bem por muito tempo.. Quando está tudo em paz e tudo dando certo uma mulher normal começa a procurar problemas ou coisas erradas. E, caso não ache nada, ela acaba por inventar alguma coisa. Esse processo me cansa mais do que deveria, mas é que sou tão reincidente nele que quase já acho que não tem outro jeito.

         Minha senhora, mil vezes obrigado pelo livro certo na hora certa.