terça-feira, 26 de junho de 2018

O preço que se paga as vezes é alto demais

           O despertador toca e de alguma forma eu já estou acordado. Me espalho na cama e deixo o lençol gelado fazer meu corpo entender que está na hora de levantar. Não é suficiente e eu preciso de muita força de vontade pra me arrastar até o banheiro de olhos ainda fechados pra tomar um banho. A agua não cai gelada, mas ela está longe de estar quente. Me agasalho pouco com um roupa de mendigo e saio pra pedalar. ¿Que espécie de pensamentos me trouxeram até aqui? Por que diabos eu gosto desse frio e dessa chuva fina nas madrugadas.? Queria lembrar que mês os franceses chamam de brumário. Menos de 500 metros depois o frio já chegou nos meus ossos. A garoa gruda na pele mas eu mantenho minha parte do trato com a chuva: não abaixo a cabeça. Quando meu corpo tenta reclamar eu pedalo mais forte até o cansaço e a dor nas pernas ofuscarem qualquer tentativa de sentir pena de mim mesmo. Às vezes eu pedalo 2km. Às vezes eu pedalo 20km. Às vezes eu persigo idéias, as vezes eu fujo de pensamentos ruins. Com a cidade vazia eu me sinto mais livre. Existe uma rua onde os anjos falam comigo e eu escuto eles melhor quando é madrugada e a cidade inteira dorme.

           Várias gripes me ensinaram da pior maneira o que o suor faz quando esfria no corpo da gente. A água pro chimarrão ferve enquanto eu tomo um banho quente. Ainda falta um tempo até o amanhecer e descansar, como se sabe, é ir fazer outra coisa. Toco um baixo desplugado sem fazer muita força. Depois de 20 anos tocando, acho que consigo imaginar as notas e ouvir elas na minha cabeça. Mas não me engano, é um mero exercício para os meus dedos.

           A tendinite me lembra que amanheceu e que tenho outra empreitada para me punir. Sento em frente a um maldito quebra cabeça e preciso segurar as peças com a mão esquerda e forçar a vista para seguir em frente. Andar mancando na direção certa ainda é melhor que sair correndo na direção errada.

           Temos tanto ainda por fazer. Eu admito que fico triste quando penso que vou ter que fazer tudo sozinho. Mas a solidão ainda é melhor do que colocar outra pessoa dentro do meu inferno.

segunda-feira, 11 de junho de 2018

Coming through in waves

              Eu queria ser autêntico. Dizem que as pessoas se apaixonam por quem é assim. Eu queria saber falar melhor de mim mesmo, sem precisar de máscaras e 3 filtros do photoshop. Queria aceitar melhor os meus medos e as curiosidades. E queria, principalmente, me admitir fraco sem a menor culpa, mas as pessoas não precisam saber disso. O mundo já tem pessoas fracas demais e sinto que não tenho muita chance nesse mercado. Eu queria ser o melhor, para mim, para ti, para nós, mas acontece que eu sempre escapo da estrada boa, tenho mania de precisar passar por muitos buracos e barrancos fora da estrada. Eu sei que nem tudo precisa ser tão difícil e dolorido, mas tem um espaço gigante fora da estrada. Um espaço pelo qual ninguém se interessa. Eu não me sinto bem desperdiçando essa infinidade de possibilidades.

                Quando eu escrevo, falo alto demais, fico sem voz de tanto gritar e pode ser que a pessoa fique surda ou enlouqueça quando não entender nada. Eu queria, também, poder entender melhor, mas não entendo nada, por isso, não se esforce, eu sei que não valho a pena. Talvez eu até valha em alguns dias pares e nas terças-feiras, porque sempre gostei mais deles, mas nos dias ímpares nem a minha sombra vale. Ou vice-versa, não sei se isso é uma regra, ainda não decidi.

               Eu queria ler livros alternativos que todo mundo leu enquanto eu gastava tempo com os clássicos que precisava ler. Saber dançar melhor é outra coisa que eu queria, é impressionante a vantagem  que esse tipo de gente tem. Queria saber mais sobre as ligações de carbono da química orgânica, falar com sotaque espanhol. Queria que a genética fosse mais branda comigo. Um sorriso menos filho da puta e menos cara de quem sempre perde. É, eu queria ter o ar dos vencedores, quem sabe isso pudesse funcionar melhor que minha arrogância emulada.

               Uns poucos que sobraram aqui perto não enxergam quase nada disso e mesmo assim me veem de um jeito que o espelho não me conta. Eu queria ser metade do que veem em mim. Metade do que as revistas dizem que devemos procurar em alguém. Metade do que os meus sonhos pedem nas minhas poucas horas de sono. Eu queria ter mais conversas em vez de escrever cartas que nunca vou mandar.

                  Mas o fato é que sou exatamente isso. E entre linhas, entre erros e acertos, sorrisos tortos e gostos trocados, tudo isso tem dona.

quinta-feira, 17 de maio de 2018

¿Is that enough.?

        No sábado, chego em casa depois do show e abro uma gaveta pra jogar dinheiro e cigarros dentro. O cheiro de um bilhete que eu guardei me machuca de um jeito que não consigo explicar. Eu não tenho problema nenhum em fugir quando enfrento algo que não posso vencer, mas ir pra praia não era uma opção. Estou num impasse com o mar e acho que só em agosto resolveremos tudo.

          Um baterista me manda mensagem me agradecendo por ser meu amigo. Queria que ele pudesse entender o quanto faz diferença cada vez que eu olho para o lado e vejo ele sorrindo. Eu estou ali perdido e sem rumo, mas ele bate forte naquela bateria e, de alguma forma, isso me ajuda a seguir em frente. Cada vez que ele sorri  eu entendo porque o inferno nunca me assustou. Eu estou em ótima companhia nele.

           Se eu não tive o mar, na segunda tive dois olhos azuis que olham através de mim faz 24 anos. A felicidade dela é um pouco minha também. E saber que ela e o Dani se encontraram me deixa muito satisfeito com o mundo e com o rumo que as coisas estão tomando. Tudo vai dar certo.

           Na terça vou para o uruguai. o mundo ficaria melhor se houvessem mais pessoas que me ligassem e dissessem "tô passando aí em meia hora, vamos pro Uruguai". Durante a viagem eu tive um anjo mudo empoleirado do meu lado enquanto meu demônio ia tentando negociar comigo. Cada um do seu jeito, ambos me ajudaram. Tudo que me obriga a olhar para dentro de mim mesmo serve.

            Aí aparece a cigana querendo ler minha mão. Segurei a mão dela e falei sem nem perceber que estava falando em espanhol: "No necesito saber nada sobre mañana Que Santa Sara la proteja y cuide siempre de los tuyos." Ela me olhou assustada e se afastando falou algo que não entendi. Lição de Marketing internacional nº1: Voce não precisa ser grande coisa, mas fica muito mais fácil negociar quando pensam que você é grande.

            Dentro da loja, vejo um uruguaio com cara de cearense que é sem dúvida o melhor funcioário dentre todos os free shops de Rivera. Deixei ele e o joal tratando das coisas sérias enquanto pedi ajuda pra recepcionista com cara de xina. Depois de vários sorrisinhos, pensei em totas as inconsêquncias dos gaúchos que me precederam na banda oriental e perguntei sem hesitar: ¿te puedo hacer 3 preguntas?
E aí fica a lição de mkt internacional nº2 quem procura acha, quem desloca recebe; e matéria atrai matária na razão direta de suas massas e na razão inversa do quadrado de suas distâncias.

             Quem pede tem a preferência.

       Penso que evitar conflitos que eu não consigo prever nem o fim e nem as consequências não seja covardia.


terça-feira, 8 de maio de 2018

Foi por aqui que eu perdi

       Assisto um video de uma raposa vendendo um guarda roupa.. 10, 20, 123 vezes. Aperta forte um relicário na mão. Tem vezes que eu hesito. tem vezes que eu acho que estou fazendo tudo errado e não consigo nem me explicar pra mim mesmo. Na parede uma trompa azul ri de mim enquanto jogo meu celular longe pra não telefonar. Não dizer que sinto falta. Não dizer que tá foda. Até Azeroth perdeu o sentido

        De alguma forma a angústia que sinto comove alguém do 27 andar e eles mandam a alma gêmea falar comigo. Ter as ferramentas certas é fantástico. De todas as pessoas do mundo, poder usar a única que não me deixou nem 1% melhor, mas me lembrou com maestria de como as coisas tendem a ficar melhor quando eu me afasto. E de que ainda tenho trabalho a fazer.

        Eu escolhi tudo isso senhores, mesmo quando o desespero me cega eu não esqueço disso. Era pra ser muito diferente, mas certas escolhas estão muito acima de mim.  Estou no chão mas não perdi minhas asas. Já passamos por coisas piores que isso. Eu sei que se eu chegar em agosto, tudo ficará bem.

        Mas, por favor, até lá, NUNCA ME CONCEDAM DESCANSAR

sexta-feira, 4 de maio de 2018

Faltaram apenas as tranças

- E como está indo o plano.?
- O plano está indo excelentemente bem.
- Tu não parece bem. Eu sempre sei quando tu chora tocando.
- O plano não envolve eu ficar bem. Estou sozinho, estou quebrado. Mas as pessoas ficam melhores sem mim. E tudo está se ajeitando de formas que eu nem imaginava possíveis. As pessoas fodas acabam se encontrando.
- O que tu quer com tudo isso.?
- O que eu quero não importa.
- Tu é o cara mais covarde e ao mesmo tempo o mais louco insano  que eu conheço.
- Gêmeos com ascendente em gêmeos, ao seu dispor. Meu trabalho é saber o que as pessoas não sabem. Isso sempre me fez solitário.
- E agora.?
- Agora eu vou pra lá.
- O que tem lá.?
- Um monte de água salgada.
- Isso é tão 2007. Tu indo pra praia depois de um show
- Existe na minha vida essa repetição que acontece sempre.