segunda-feira, 29 de junho de 2015

Ele tem cara de Chico.

           Ele me conhece a 35 anos. Essa foi a segunda vez que falei com ele por telefone. -Vem ver o Chico, ele me disse, com a urgência de quem precisa e manda ao mesmo tempo. Quando desliguei o telefone eu não era mais eu. Eu era o Vento de 13~14 anos no meio de uma missa de formatura na igreja de São Pelegrino. Chovia forte e no meio da missa um gato na parte de trás da igreja miava muito. Eu levantei e peguei o gato no colo, lembro até que fiz o padre sorrir no meio do sermão. Existe um pátio entre a sacristia e a casa paroquial. Depois da missa estávamos nesse pátio eu, o Padre Mário e o gato decidindo o que fazer. O Padre disse que ia achar alguém pra ficar com ele e eu estava saindo, mas antes de sair, falei com a certeza de quem sabe que nada acontece por acaso - Se ele ficar aqui, o nome dele vai ser chico. E de um jeito tosco e arrogante, batizei o gato jogando água da chuva nele.

          Hoje o chico está velho e doente. Foi triste demais ver ele sabendo que ele ia pro veterinário e provavelmente não ia mais voltar. E lá estava eu me despedindo do gato que eu tinha deixado lá muitos anos atrás e que eu sempre procurava quando tinha alguma coisa pra fazer na igreja. Tivemos nossas brigas mas eu gostava dele. Por todo esses anos ele foi a coisa mais próxima de um animal de estimação que eu tive.

            Eu lembro de coisas que simplesmente não deveria mais lembrar, mas parece que o Único Acima tem um plano pra isso também. 

Por esta santa unção e pela sua misericórdia, o Senhor venha em teu auxílio com a graça do Espírito Santo para que, liberto dos teus pecados, Ele te salve e, na sua bondade, alivie os teus sofrimentos. Senhor, que o vosso servo, ungido na fé por este óleo, possa sentir alívio em suas dores e conforto em sua fraqueza. Por nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, na unidade do Espírito Santo.

          Vi o Padre me olhando brabo por eu dar a extrema unção para um gato. Mesmo chorando que nem criança tentei sorrir. Pedi desculpas por não lembrar em latim. Sempre achei que se Deus existisse ele iria gostar de ouvir as coisas em latim.

              Na minha cabeça se eu tinha batizado, a extrema unção era minha também. 

domingo, 28 de junho de 2015

quarta-feira, 24 de junho de 2015

Triplamente protegido

         Não beber é paliativo. Não passa de uma solução superficial para um problema mais abaixo. A bebida nos tira os freios e as máscaras que usamos para parecermos mais aceitáveis socialmente. Uma garrafa depois e estamos mostrando o que realmente somos, aquilo que pensamos e não nos permitimos mostrar. E de repente pra nós faz sentido tentar algo impraticável e correr todos os riscos desnecessários possíveis. Curtir uma situação beirando o insustentável que pra gente está legal.. mas que pros outros é absurdamente impensável. 

Ou mudamos o que somos para que a ausência de máscaras não nos destrua ou evitamos álcool como quem tapa o sol com a peneira. 

Pena que ninguém muda. Pena que aceitar o que somos as vezes é tão difícil. Por muito tempo li A Arte da Guerra e O Príncipe procurando alguma verdade secreta neles. Procurando algum método que torne mais suave o caminho para transformar pensamentos em ações. Acabei descobrindo que estava apenas procurando alento. Justificativas racionalizadas para ser como eu sou. Para não me importar com o que pensam de mim e como me julgam.

Ironicamente, eu não lembro nem de Maquiavel nem de Sun Tzu quando bebo. 

Eu penso em Osho e Nietzsche 

quinta-feira, 18 de junho de 2015

Paz de cemitério

Não importa o dia, a festa, SEMPRE que não saio acabo descobrindo depois que deveria ter saído. Que havia em algum lugar, uma pessoa ou evento que precisava do meu envolvimento. Sentimento do Blitz. - Oh man!

Almoço com a minha senhora. Alguém que te conhece sem que tu fale nada e que termine tuas frases melhor que tu mesmo não tem preço.

Depois vai ajudar uma amiga, não porque ela merecesse ou porque eu sou o cara pra ajudar quem precisa. Mas ela pediu e sabemos bem como é difícil pedir ajuda. Em troca conheci uma cachorrinha que não parou quieta um segundo e que foi muito simpática em não me morder forte. 

Como é bom conseguir guardar segredos. Isso de fazer e pensar coisas e não contar pra ninguém é meio que libertador. 

E os dias vão passando e só. Parece que estou aprendendo alguma coisa, mas não sei com certeza.

sexta-feira, 12 de junho de 2015

Estripulias

          Isso é de um livro velho, mas eu sei que é diferente. Rabisquei de memória uns pedaços e escrevi o resto. E faz dias que olho pra um pedaço de papel jogado na minha mesa tentando salvar as rimas ou a métrica.  

E não tem como salvar nenhum dos dois... Por mais que a gente se esforce, algumas coisas ficam erradas mesmo.


E eu fiz tanta estripulia
Que de novo o rei me chamava
Pra casar com a sua filha
Eis o dote que ele me dava:
Oropa, França e Bahia
Se eu prometia que me comportava.

Mas eu disse que não queria
Porque ela não me amava
E dela eu sempre fugia
Porque ela sempre me machuvava.
Um homem melhor ela merecia
Melhor que que ela sonhava.
E a princesa teria muita alegria
Se um adeus ela me dava.

quinta-feira, 11 de junho de 2015

Às vezes é a espada que me defende

O Vírgílio queria um palco, eu queria saber se ainda era capaz. E queria me sentir seguro, pelo menos por um tempinho.  Consegui um show pra ele e ele me defendeu. 

Ainda lembro das palavras 


"O errante vagueia pela terra a procura da resposta para suas preces mais tenebrosas 

Ela está para além de qualquer esperança - mas, no entanto, a salvação ainda é possível.

Por que? O que faz um mortal tentar o impossível.? Dizem que as almas, uma vez perdidas, não podem ser reclamadas. Mas, com essa espada, talvez não seja impossível. 

Tudo lança uma sombra. Quando uma entidade existe para além do reino mortal, os homens pouco mais vêem além de sombras. Mas há uma espada antiga. Sem ela, não será possível encontrar aquilo que o errante deverá vencer. E se não for encontrado, não poderá ser destruído.

Ilumina-a e ela iluminar-te-a."



E choveu. O resto é história.

domingo, 7 de junho de 2015

Fateweaver

           Agora, olhando pra trás, faz todo sentido eu ter odiado o Danzo desde a primeira vez que o vi. Tenho todos os defeitos do mundo...sempre odiei quem é parecido comigo. Menos a minha senhora.. de certa forma ela é a minha redenção. Jogou um pouco de luz e carinho naquilo que pra mim são só sombras e becos escuros.  Somos iguais, mas gosto de pensar que o lugar dela é nos galhos, brilhando ao sol.. enquanto o meu é nas raízes, sustentando um bem maior. No fim, a árvore floresce e isso me basta. Andar mancando na direção certa ainda é melhor do que correr na errada.


sábado, 6 de junho de 2015

Fora de contexto


            Um paulista me chama no palco pra tocar Nirvana. Ele não sabia, mas me deixou sem chão. Quem não tem chão tem que confiar no céu. A irmandade manda recado. Tudo é permitido. Nada é verdade. Eu sabia o que fazer e não cabia em mim de contentamento. Poderia fazer o que faço de melhor. Era só sorrir  que eu ficaria invisível. A letra de Polly pesando. Uma tonelada de memórias. O acústico, o suspiro. Ele morreu. Morrer. Um baixo estranho mas meus dedos sabiam o que fazer. As luzes piscam e o som do baixo fica mais alto. Havia um dos meus atrás da mesa de som, exatamente onde eu sabia que ele estaria antes mesmo dele pensar em ir. Esse é o plano. Colocar tudo no lugar. Ficar invisível para não incomodar mais ninguém. Solta o cabelo e sorri. Fecho olhos e vejo a mesma imagem. A mesma tendinite corroendo meu braço. Talvez não esteja tudo perdido. Asas sujas. Cortar elas. Chorar no palco.  Eu posso, ali sou invisível. Ali a dor e loucura não podem me machucar. E talvez ninguém nunca entenda como isso me liberta.  A maré muda. Mas existem marés e existe a Lua.

sexta-feira, 5 de junho de 2015

Paradigmas

         Meus planos, os bons pelo menos, sempre se basearam na ideia de que as situações ruins e adversas são inevitáveis. Queria poder dizer quer era uma escolha tentar moldar as pessoas em vez de moldar a situação... até porque acreditar nas pessoas faz toda diferença. Mas eu estava enganado. Nunca foi escolha. Era incompetência ou incapacidade para prever problemas antes deles acontecerem. Era deixar o circo pegar fogo enquanto torcia para que me ajudassem a tentar apagar. Em suma, uma tolice sem tamanho. 

      Ainda acredito na pessoas, talvez até mais do que antes. Já testemunhei feitos incríveis, para o bem o para o mal.  Mas agora faço parte do time que tenta deixar tudo ao redor melhor pra que cada um possa dar o seu máximo. 

quarta-feira, 3 de junho de 2015

Fora dos livros de história


        No tempo em que Getúlio Vargas era presidente do Brasil, prefeitos não eram eleitos, mas sim nomeados, eis que o prefeito da cidade de São Borja escreve-lhe a telegrama a seguir: 

"Presidente, preciso de Vossa ajuda. Cada homem tem seu preço e eles estão chegando no meu ."