sexta-feira, 25 de março de 2016

Mapas do acaso

             Ano passado encontrei o amazonas cheio.. e arrogante. E grande. Brigamos muito e sem a ajuda da chuva, não teria conseguido nada dele. Mas agora encontrei ele menor. E ele também me encontrou diferente. De certa forma eu também estou menor. Nosso encontro ano passado foi mais solene, mais duro e formal. Esse ano foi como duas crianças brincando. E eu tomei banho no maior rio do mundo enquanto sentia ele levando embora tudo de ruim que ainda pesava em mim ultimamente. A cada mergulho a cura do meu animismo ia se tornando mais efetiva. Um índio num barco faz uma piada sobre eu ter asas e nadar. A minha resposta veio antes que eu sequer pensasse nela "sobrevive quem se adapta". E nisso está meu foco. É demasiado tarde para fingir ser forte. Talvez tudo que possa ser feito agora é reconhecer minha capacidade de me adaptar. Tenho feito isso há anos, mas nunca achei que isso seria tão importante.

          Um arco e flecha sempre foi uma das minhas formas preferidas de meditação. O jeito de mirar não mirando... o cálculo empírico de intuição que se faz pra compensar a gravidade e o vento. E aquele momento em que tento provocar o disparo pq estou perdendo o fôlego. É tão parecido com o jeito que toco. Tão parecido com quase tudo que faço, na verdade. Saudade de ter um instrumento musical na mão e tocar. Sinto tanta falta.

          Perdi a lua cheia por causa das nuvens, mas o anoitecer entrou pro meu campeonato de ironias. No leste eu via uma tempestade se formando enquanto meu barco se dirigia pra ela. E no oeste o sol ia se pondo alheio a tudo. Se o rio  Tapajós tivesse um signo, certamente ele seria de gêmeos.  E entrei debaixo da chuva cantando cordel do fogo encantado. 

"Home is a state of mind"

         No meio da madrugada uma ligação tira meu sono. Do outro lado da linha uma voz que me lembra que nada chega perto. E minha senhora faz o que melhor lhe cabe: manda em mim. Eu tenho uma folga em abril e posso voltar pra casa. Mas apareceu uma oportunidade de ir pra Minas Gerais com meu palhaço preferido. Aqui dentro segue um debate sobre me desprender e não voltar.. aproveitar uma oportunidade que talvez nunca apareça de novo. ¿Mas e se ir pra minas for apenas uma fuga? E se for apenas o velho vento maquiando de coragem uma atitude covarde.? 

Âncora?
Vela.?
Qual me leva?
Qual me prende?
Mapas e bússolas
Sorte e acaso
Quem sabe? do que depende?

        De qualquer forma, por mais que eu diga que nada mais me prende à Caxias, a ligação de ontem me lembrou que sim, há ainda uma coisa que me prende àquela cidadezinha. 

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