sábado, 14 de janeiro de 2017

Stay hungry. Stay foolish.


           No fim da tarde de quarta, uma ligação meio sem pé nem cabeça:

- Tá fazendo o que.?
- Nada.
- Vamos pro Uruguai
- Quando?
- Hoje, mesmo esquema da outra vez, o aquece começa meia noite.
- Beleza, colo lá na madruga.

          E assim o Kiko me convida pra ir pra banda oriental com a mesma displicência de quem vai comprar cigarro na padaria da esquina. Não que a viagem seja absurdamente longa ou difícil, mas eu acabo supervalorizando quase tudo relacionado a esse pequeno pais ao sul de tudo.

         O aquece foi tranquilo. Entre doses de Bourbons e Whiskys,  conversas sobre pirâmides, relações matemáticas e invenções de Arquimedes. Ao som dos roncos do Joel. O Joel é mecânico, vendedor de ar condicionados, ornitólogo, pai apaixonado, cozinheiro e, na ocasião, o capitão da nossa viagem. Era pra ser um itinerário simples, 500 km, encher a van de ar condicionados e algumas muitas garrafas de trago, mais 500km e casa. O problema é que era uma quinta feira 12. E era óbvio que o mundo tinha outros planos pra nós.

              As sextas 13 são uma trufa de chocolate perto das quintas 12. Sabendo disso, não foi completamente inesperado chegar em Jaguarão e atravessar a ponte para descobrir que em nenhuma loja daquele fim de mundo existia o modelo de ar que a gente queria. Voltar pra casa seria um prejuízo total e rapidamente havia um plano B. Pega o GPS e traça o destino pra Rivera, com direito a atalho rally dos sertões. Teoricamente daria tempo de pegar as lojas de lá abertas, comprar e voltar. Mas eu não contava com o fato das lojas de rivera ignorarem o horário do Uruguai e fecharem pelo horário do Brasil. E depois de 900km rodados, nos atrasamos por 20 minutos.

              De novo, voltar de mãos vazias seria um desperdício, então era encontrar um hotel duvidoso e passar a noite ali. As fronteiras do Uruguai possuem uma característica interessante. Quando tu fala com as pessoas em espanhol elas respondem em português e vice versa. Mas havia um cassino, um monte de nóias e patrícias quase geladas: tudo pra dar certo. Mas na manhã seguinte descobrimos que não existia em Rivera o que a gente queria comprar. As opções estavam ficando limitadas e depois de uma ligação pro Uruguai, falei com um tal de Juan e encontrei uma solução pro nosso problema. Três horas de viagem depois estávamos entrando na república oriental pela 3 vez em menos de 24 horas. E no terceiro lugar diferente. E quando deu certo a gente meio que não acreditou. Era só ir pra casa. 




                E quando cheguei em casa, entrei no chuveiro de roupa e tudo. Entre poeira, óleo diesel e suor eu estava imundo. E ali no escuro eu repensei tudo. Mesmo com tudo dando errado, eu passei a maior parte da viagem sorrindo. Até porque, nesses momentos em que o mundo fica me empurrando pra trás, eu teimo e teimo e empurro mais forte. No meio da estrada eu lembrei da Lisi. Por causa do Chico em espanhol. Por causa da Marina de la Riva e por causa de uma música do No te vá gustar. A ferida ainda dói quando eu penso nela, mas não me impede mais de fazer o que eu quero 

                Ali, no sul do estado, o pampa faz a mesma coisa que o mar. Ele coloca o horizonte mais longe e por causa disso a gente se sente mais pequeno.  E quando a gente se sente pequeno invariavelmente começa a olhar para dentro. Ainda me boicoto, ainda minto muito e ainda sou preguiçoso, mas começo a olhar para dentro sem me odiar por completo. Começo a ter capacidade de me reconstruir mais rápido do que me destruo. Minhas asas não pesam mais. Voar, no fim das contas, é uma questão de velocidade. E sorrir é uma questão de escolha. 





Até porque depois de uma colherada de doce de leite uruguaio é impossível não sorrir.

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