Eu ainda sei fazer chover.
E depois que todos foram embora eu fiquei ali, sentado na chuva. Até esquecer do frio. Até meu sorriso sincero fazer chover mais forte. Até ouvir os relâmpagos rindo comigo. Obrigado por não esquecerem.
Eu ainda sei fazer chover.
E depois que todos foram embora eu fiquei ali, sentado na chuva. Até esquecer do frio. Até meu sorriso sincero fazer chover mais forte. Até ouvir os relâmpagos rindo comigo. Obrigado por não esquecerem.
Eu lembro sempre daquelas tardes de domingo no verão. As mãos suando sem parar por causa do calor e da teimosia. As sobrancelhas não conseguindo tirar o suor dos olhos. E eu estudava com o Virgílio na mão obcecado por alguma coisa que eu nem sabia o que era. Talvez eu quisesse ser bom. Talvez meu metrônomo brigando comigo fosse a única companhia que eu merecesse na época. Talvez eu estivesse fugindo. Talvez eu estivesse procurando alguma coisa.
E eu me lembro também das manhãs geladas do inverno. Quando o frio e a tendinite me acompanhavam enquanto eu tocava baixinho pra não acordar ninguém. E o sol amanhecia me ouvindo tentar e tentar. Não tocar melhor, mas ser uma pessoa melhor.
Eu lembro de tudo isso porque nada vai ser como era. Sei que tem coisas quebradas aqui dentro que eu não tenho como concertar, mas uma coisa eu queria ter de volta. Eu estou cansado da minha amargura. Cansado de arrastar minhas tragédias de arrasto.
Uma música antiga, porque o Virgílio também lembra dela. Acabo por sempre voltar pros engenheiros do hawai.
Perdoa o que puder ser perdoado. Esquece o que não tiver perdão. Soa como um plano.
A abertura de How i met you mother ainda me emociona. Era fácil me ver como o Barney e aceitar que ia acabar sozinho. No fim eu era a Robin. Eu sempre fui a Robin. Perdi a esperança do guarda-chuva amarelo faz anos, mas ainda existe uma trompa azul na minha parede, pra me lembrar do peso das escolhas.
Coisas que não posso consertar. Portas que nunca mais vou abrir.
Que bom que você veio. No meio desse caos eu imagino que esteja difícil pra você achar tempo pra conversar com algo tão insignificante. Não tem sido fácil, mas é assim mesmo. AS vezes a gente quase desiste do trabalho, mas nunca deixa de acreditar nele. Estamos cansados. Dia sim, dia não eu me fecho pro mundo. ¿Você lembra de quando eu era criança e tentava te explicar que conseguia viver duas vidas e apontava pras estrelas como justificativa. Como se as estrelas fizessem sentido pros perpétuos. Você poderia ter me explicado sobre o preço que se paga, mas em vez disso amavelmente me ouviu. E esperou que eu aprendesse por mim mesmo. Acho que ainda não aprendi tudo que deveria. E acho que nunca aceitei que não podia fugir de certas regras. Nossas conversas sempre trazem todas essas lembranças. Queria te dar um abraço. Queria que essa inquietação passasse e que eu parasse de procurar respostas que não existem. Sou tão humano nisso. Tentando racionalizar o invisível como se ele fosse matemática. Tentando consertar o que está irremediavelmente quebrado.
Não vou te amarrar muito, temos tanto ainda por fazer. Até a próxima e, se for por mim, traz meu cavalo. Espero que ele esteja bem e que vocês estejam se entendendo. Obrigado por tudo, minha amiga.
E finalmente eu entendi. A mira do cupido não é ruim. O fato é que é difícil mirar com os olhos cheios de água
Trabalha com uma orquestra tocando músicas francesas. Achei que Lá vie em rose ia me desmontar e me preparei pra ela com quem sabe que vai tomar um chute nas costelas. Mas nós não contávamos com a Zaz. E com um chute na cara o Único Acima ganha mais uma. Essa ironia é tua. Perdi mais uma. Aliás, eu perco todas minhas melhores apostas. As madrugadas com o Barão. Aprende a tocar sem olhar. Entende que não precisa olhar pro instrumento pra trocar, os dedos sabem onde ir. Queria poder dizer que aprendi a tocar sem olhar porque os olhos são inúteis pra ver certas coisas, mas a verdade é que entre subir num palco e ficar invisível e segurar o Virgílio enquanto ele toca sozinho, eu normalmente fecho os olhos pra me defender.
Lembrei de uma história. Pode ser o eclipse, pode ser Saturno e Júpiter juntos no horizonte. Eu tenho os poços nas estrelas, mas os planetas são meus cúmplices. Acho estranho como ninguém vê eles correndo pelo céu.
Naquelas quintas semiperdidas no Revival, entre drogas e dor, eu me fechava pra muita coisa. E todos me diziam que eu deveria dar uma chance para uma menina, porque ela queria muito ficar comigo. Eu respondi algo que acho que só eu via: Não era comigo, não precisava ser eu; podia ser qualquer um. Ainda hoje eu sinto a mesma coisa em várias situações. Parece que as pessoas precisam muito algo de mim, mas na verdade, pode ser de qualquer outra pessoa.
Agora preciso ouvir Carla Bruni até arrancar aquele maldito sotaque de Paris dos meus ouvidos. Até o cinza do fim da tarde ficar mais sépia. Je veux mourir avec ma main sur mon cœur, mais en attendant, ne me laisse jamais de repos
A lua está cheia. Eu vejo marte vermelho. Tenho quase certeza que aquela outra é antares. Meu céu tem poços. Quetzalcoatl encheu o saco de mim. Deveríamos fazer terapia, mas não, comprei um violoncelo. Porra, Vento, tu só tinha um trabalho. Eu já tentei tocar o Lorenzo com inúmeros sentimentos, mas eu e ele só funcionamos bem na base da raiva. E minha mão dói por segurar o arco errado. E eu me sinto terrivelmente incompetente por não saber tocar. E eu me arrasto montanha acima pra me jogar de novo. Não posso mudar, yo creo. Mas sempre posso me tornar aquilo que eu sou. Se eu parar de chorar eu posso desenhar um universo usando essas 5 linhas e esses 4 espaços. São só bolinhas, mas são minhas. Basta dançar com as mãos.
Dormir.?? Nah, NUNCA ME CONCEDA DESCANSAR.
A madrugada tem dois horários significativos pra mim. 03h30 foi, por muito tempo, a hora de desmaiar. Por várias vezes sentei para escrever perto dessa hora com um sentimento de , cheguei até aqui, acho que mereço um descanso agora. Essa sensação vem do fato de que quase todo mundo que conheço vai dormir muito antes disso. Então, na minha metáfora de dias com 25 horas, eu achava que meu dia rendia mais. Acabei por me acostumar a dormir pouco. Indo dormir as 3h, conseguia acordas as 8 com uma certa dignidade. Eventualmente, talvez uma vez por semana, eu chutava o balde e dormia até meio dia.
E 05h15 vem de uma época de trabalho. Atrás do balcão e em cima de palcos. Às vezes a madrugada passa rápido. Quando tudo está bem a madrugada passa rápido. E, de repente, já era 5h15 da manhã e parecia que a festa tinha começo uma hora antes. Saudade dessas noites em modo automático.
Eventualmente, entendi que quanto mais cedo eu acordasse, mais meu dia renderia. Eu não precisaria ficar acordado até as 3h se acordasse antes que todo mundo. Num dia normal, quando meus amigos acordam eu já pedalei 15km, já li algum livro aleatório ensinando coisas que nunca vou usar e já estou com o baixo na mão a ponto de me preocupar com a tendinite.
Era um bom plano, mas meu corpo está brigando comigo. E agora, 3h32, eu estou acordado e completamente sem sono. Acho que me tornei um daqueles velhos chatos que nunca dorme e só reclama.
De qualquer jeito, saio da cama com a mesma ordem de sempre: Levanta, sacode a poeira, dá a volta por cima.
Tem dias que é foda. E ali parado com o Virgílio na mão eu percebo que preciso tirar forças de onde não tem. Penso no sorriso da Claudia e sinto meu coração tremendo. Estar tudo bem e eu não me sentir como se estivesse tudo bem faz com que eu me sinta um merda. Eu briguei com o Único Acima e o Diabo me deu férias, mas ainda assim um anjo e um demônio andam por aqui comigo. Eu normalmente falo com eles em latim. Não que eles só entendam isso, mas eu não tenho mais com quem conversar. Não visito a Padre Mário tanto quanto gostaria. Apesar do latim, quando a coisa fica feia eu rezo o pai nosso em espanhol. Adoro a arrogância das orações católicas, cheias de ordens.. E tanto o anjo quanto o demônio entendem que eu preciso de ajuda, que sozinho eu não dou conta. Que carregar os escombros de uma vida me sobrecarrega. E eles me pegam pela mão. E então eu volto a ser só uma criança inconsequente que não tem medo do parquinho. Eu não estou mais sozinho. E eu sei bem como esse parquinho funciona. O que eu não sei é desistir.
E o Virgílio toca sozinho me carregando nas costas. Ter alguém que sente orgulho de mim é deveras estranho. Há serventia nas minhas asas. Pena que elas não ajudam pra dormir.
Numa tarde do inverno de 1997 eu fui falar com a Tamara. Ficamos na porta conversando e a mãe dela gritou da sala perguntando quem era. - Não é ninguém, é o Vento.
Acho que não sei mais como ser ninguém.
Demorei pra postar algo porque estava revisando um dos 3 únicos textos que eu me orgulho de ter escrito.
Traição
Posso te roubar um beijo.??
Apenas um beijo
Chovia muito... e ela lembrou do namorado.
Não sabia onde ele estava. Estavam um pouco distantes naquela semana.
Depois tudo voltaria ao normal. Nada demais.
Na noite passada havia sonhado que abraçava muito alguém.
Passou o dia com a sensação do vazio de um sonho sem rosto.
O que sentia pelo namorado era intenso demais. Como a chuva que estava caindo. Nunca o trairia.
Intensidade. Ele também sentia isso.
Ele tinha essas milhares de paixões intensas, que voltavam do passado em conversas que ela se unhava para não vomitar.
Era mais intenso do que ela suportava. Intenso ciúme que ele jamais entenderia.
Toda vez que havia um silêncio ela pensava: deve estar faltando a tal intensidade, aquela que ele sempre conta, aquela que vai acabar matando a minha.
Quietos telefones, quietas promessas e paciências. Quietos abraços em sonhos sem rostos.
Depois lembrou do pai vendo a foto dele: é muito homem para você minha filha.
Como assim.??
Muito esperto, muito vivido. Arrume um garoto.
Um garoto.
Garotos nunca davam trabalho. Sempre calavam 'as suas colocações perfeitas de mentira e fuga.
Para ele não, tudo não passava de desculpas de aleijado.
Ela e suas muletas.
Ele chutando todas para bem longe. Ela parada num momento.
Será que consigo continuar sem elas.?? Andando torta atrás dele. As vezes se arrastando.
Ela sabia do poder frágil que os garotos exerciam nela.
Garotos nunca dormiriam eternamente, nos minutos em que ela acordava para sonhar que estaria ali pra sempre.Garotos não seriam respeitados fazendo o exato oposto do que ela faria.
Garotos jamais teriam vivido o suficiente para corrigí-la e entendê-la numa mesma fração de segundo, com olhares de reprovação e adoração num mesmo olhar.
Garotos apaixonados fariam de tudo para ela e esqueceriam de ser tão eles.
Garotos seriam mais ela porque ainda não eram eles. Nada admiráveis. Nada homens afinal.
Só um beijo. Na chuva. Um garoto.
Ela lembrou de outra intensidade. Da saudade mais filha da puta que já sentiu de alguém e do telefonema que recebeu dele.
Lembrou do tamanho cruel que o mundo desconhecido havia ganhado por ele o ter conhecido sem ela. Dos todos os orgasmos que ele sentiu, enquanto ela pensava ser pecado esconder-se debaixo do edredon, sozinha.
Ele sempre na frente. Do tempo, dele mesmo, da vida dela.
Ele comprava erva. Ela fazia chá para amenizar a vida que lhe parecia ousada só de espiar pela janela.
Ele e todas as músicas. Ele e todos os lugares. Ele e todos os shows.
Ele e todos os amigos. Ele e tantas mulheres.
Ele pedindo para ela ser mais feliz, mesmo longe dele
Ele pedindo para ela ser uma pessoa mais tranquila, mesmo se irritando com tudo.
Ele pedindo para ela confiar.
Ela sabendo que cada pedaço do mundo, com vida, poderia sentir, assim como ela, desejo por ele.
Pensava em tantas intensidades, mas não entendia o coração pulando. Ela queria beijar o garoto mais do que tudo no mundo.
Ela sentiu o peso nas costas. O garoto era amigo do seu namorado.
Ajeitou a postura e lembrou que poderia ser uma mulher muito melhor para o namorado, cansativamente melhorando para sempre.
Lembrou da chuva forte que caia num dia em que eles acordaram se gostando muito.
Te adoro, te adoro, de vez enquando te adoro muito. Ela sempre mais do que isso.
Ir embora tem que ser da vontade dos dois. Vontade dos dois era a vontade dela respeitando a dele.
Que saco um homem.!! Pensou isso na intensidade de um foda-se bem grande.
O que esse garoto quer afinal.??
Um beijo.Só isso.?? Bem gostoso, na chuva. Uma boca tão bonita. Ninguém iria ficar sabendo. Um garoto com o coração aberto.
Abriu a janela.
Fez que não o entendeu, e o beijou...
Traição é lixo.
Cada um tem seu lixo. Dizem até que se forem lá fuçar saberão mais de você.
Besteira, todos os lixos são iguais no final.
Todos os lixos são necessários. Você vai acumulando, juntando, jogando.
Uma hora você quer se livrar dele. Fazer de conta que ele nunca existiu e poluiu sua casa e sua vida.
Esquecer os dias em que manteve restos sem serventia. Restos de amor próprio enganado, assustado, inseguro.
Daí você deixa o lixo aparecer. Para se ver livre dele. Para que alguém o leve.
Levem a minha podridão daqui e façam de conta que não perceberam o quanto ela me foi útil e prazerosa antes de apodrecer.
Quando você menos esperar, já foi.
Deixou-se beijar pensando esse monte de desconexas besteiras e sentindo o momento eterno e sem futuro.
O beijo durou o tempo de mais um monte de neuroses. Assim ela media as horas.
Mil motivos para trair. Mas sempre a mesma podridão.
Lembrou dele dizendo que isso pode acontecer. Ninguém está livre disso acontecer. Vai depender da distância em que estivermos.
Mais uma vez o obedeceu.
Aconteceu.
"Quem facilmente se ira, fará tolices", lembrou de Deus, da Bíblia, de todos os cadernos que ela já havia escrito. Do ridículo que era casar de branco.
Agora ela tinha um lixo de fazer inveja.
Agora ela tinha um passado e um presente para se torturar. Com a diferença que o lixo dele era recriado para tormento. O dela era ainda vivo e apenas começava seu processo de decomposição.
Todos os amantes do mundo, lixos do mesmo saco.
Ela o traiu para se igualar ao mundo podre. Para ter uma história mínima que calasse o ódio frustrado de desejar o que era do mundo.
Traiu para perdoá-lo
Traiu por tanta saudade de ser abraçada pelo novo. Pelo que poderia ser perfeito e nunca desgastar.
Traiu por saudade de ser abraçada sem pressa. Sem milhares de programações que atrapalhavam o tempo infinito de um abraço.
Não traiu por desejar o outro. Traiu por desejá-lo muito. Por precisar urgente acostumar-se a existir sem ele. Nem que fosse nos braços de outro.
Traiu para ter um momento seu que não fosse roubado por ele. Estava cansada dele ser o ator principal até das histórias que ela inventava para brilhar.
Traiu por pensar que se beijasse alguém, com tanta intensidade, conseguiria sufocar por um tempo a sensação , desnecessária e maluca, de que era traída a todos os instantes pelas pessoas que amava demais.
Surpresa.
Ela nunca se sentiu tão traída. Ela sabia, ela tinha certeza.
Um dia ira acontecer. Alguém iria traí-la.
Ela só não sabia que seria ela mesma.
Semana passada eu surtei e resolvi que ia escrever todo dia. Por enquanto tenho conseguido, mas nem tudo que eu escrevo eu posto aqui. Os anos passaram mas eu continuo escrevendo cartas que nunca vou mandar. E tem dias que é difícil achar inspiração. Tem dias em que os minutos e as horas passam automaticamente devagar. E a inércia pesa no fim do dia. Se eu fosse escritor chamaria isso de bloqueio criativo. Se eu fosse menos obcecado chamaria simplesmente de preguiça.
Entre a tendinite e alguns planos esdrúxulos, há um zumbido que não me deixa pegar no sono. Mas durmo o menos que consigo. Mesmo quando os minutos são pastosos, eu me apego a eles. No lugar onde fiz meu primeiro estágio aprendi algo muito importante: As coisas não são pra ontem, mas elas raramente são pra amanhã. E um dia de cada vez eu vou me equilibrando na mesma ponte de sempre.Nem sempre é preciso de sal e areia pra costurar. Ela pega minha esperança e costura com mais carinho do que eu jamais serei capaz. Era pra ser só um pedaço de pano. Era pra ser só uma noite. Já passou de um ano. Minha esperança está como nova. E eu amo tanto que às vezes tropeço em mim mesmo.
Até alguns anos atrás eu passava por um termômetro desses de rua no caminho pra praia. E é basicamente por causa dele que meu divisor pra saber se está frio ou não é 6º. Eu tenho uma foto de camiseta na frente desse mesmo termômetro com ele marcando 6º numa madrugada de inverno. Mas houve outra madrugada em que eu fui pra praia e ele, por coincidência, também estava marcando 6º. Essa foi a noite mais fria em que eu entrei no mar.
Minha relação com o frio foi mudando com o tempo. Por muito tempo eu achei que podia me defender dele, mas eventualmente eu percebi que ele não podia me machucar. No fim é uma sensação igual a qualquer outra.
Eu já vi geada sobre a areia, mas não tive coragem de entrar no mar quando estava mais frio do que 6º.
A vida me dá muitos professores. Alguns eu procuro com perguntas específicas e outros eu simplesmente observo enquanto estão perto de mim. E eles não tem ideia do quanto me ensinam. Hoje é aniversário de um deles. Parabéns Kico.