segunda-feira, 31 de agosto de 2020

Depois fica óbvio

Demorei pra postar algo porque estava revisando um dos 3 únicos textos que eu me orgulho de ter escrito.



Traição


Posso te roubar um beijo.??

Apenas um beijo

Chovia muito... e ela lembrou do namorado.

Não sabia onde ele estava. Estavam um pouco distantes naquela semana. 

Depois tudo voltaria ao normal. Nada demais.

Na noite passada havia sonhado que abraçava muito alguém.

Passou o dia com a sensação do vazio de um sonho sem rosto.

O que sentia pelo namorado era intenso demais. Como a chuva que estava caindo. Nunca o trairia.

Intensidade. Ele também sentia isso.

Ele tinha essas milhares de paixões intensas, que voltavam do passado em conversas que ela se unhava para não vomitar.

Era mais intenso do que ela suportava. Intenso ciúme que ele jamais entenderia.

Toda vez que havia um silêncio ela pensava: deve estar faltando a tal intensidade, aquela que ele sempre conta, aquela que vai acabar matando a minha.

Quietos telefones, quietas promessas e paciências. Quietos abraços em sonhos sem rostos.

Depois lembrou do pai vendo a foto dele: é muito homem para você minha filha.

Como assim.??

Muito esperto, muito vivido. Arrume um garoto.

Um garoto.

Garotos nunca davam trabalho. Sempre calavam 'as suas colocações perfeitas de mentira e fuga.

Para ele não, tudo não passava de desculpas de aleijado.

Ela e suas muletas.

Ele chutando todas para bem longe. Ela parada num momento.

Será que consigo continuar sem elas.?? Andando torta atrás dele. As vezes se arrastando.

Ela sabia do poder frágil que os garotos exerciam nela.

Garotos nunca dormiriam eternamente, nos minutos em que ela acordava para sonhar que estaria ali pra sempre.Garotos não seriam respeitados fazendo o exato oposto do que ela faria. 

Garotos jamais teriam vivido o suficiente para corrigí-la e entendê-la numa mesma fração de segundo, com olhares de reprovação e adoração num mesmo olhar.

Garotos apaixonados fariam de tudo para ela e esqueceriam de ser tão eles.

Garotos seriam mais ela porque ainda não eram eles. Nada admiráveis. Nada homens afinal.

Só um beijo. Na chuva. Um garoto.

Ela lembrou de outra intensidade. Da saudade mais filha da puta que já sentiu de alguém  e do telefonema que recebeu dele.

Lembrou do tamanho cruel  que o mundo desconhecido havia ganhado por ele o ter conhecido sem ela. Dos todos os orgasmos que ele sentiu, enquanto ela pensava ser pecado esconder-se debaixo do edredon, sozinha.

Ele sempre na frente. Do tempo, dele mesmo, da vida dela.

Ele comprava erva. Ela fazia chá para amenizar a vida que lhe parecia ousada só de espiar pela janela.

Ele e todas as músicas. Ele e todos os lugares. Ele e todos os shows.

Ele e todos os amigos. Ele e tantas mulheres.

Ele pedindo para ela ser mais feliz, mesmo longe dele

Ele pedindo para ela ser uma pessoa mais tranquila, mesmo se irritando com tudo.

Ele pedindo para ela confiar.

Ela sabendo que cada pedaço do mundo, com vida, poderia sentir, assim como ela, desejo por ele.

Pensava em tantas intensidades, mas não entendia o coração pulando. Ela queria beijar o garoto mais do que tudo no mundo.

Ela sentiu o peso nas costas. O garoto era amigo do seu namorado. 

Ajeitou a postura e lembrou que poderia ser uma mulher muito melhor para o namorado, cansativamente melhorando para sempre.

Lembrou da chuva forte que caia num dia em que eles acordaram se gostando muito.

Te adoro, te adoro, de vez enquando te adoro muito. Ela sempre mais do que isso.

Ir embora tem que ser da vontade dos dois. Vontade dos dois era a vontade dela respeitando a dele.

Que saco um homem.!! Pensou isso na intensidade de um foda-se bem grande.

O que esse garoto quer afinal.??

Um beijo.Só isso.?? Bem gostoso, na chuva. Uma boca tão bonita. Ninguém iria ficar sabendo. Um garoto com o coração aberto.

Abriu a janela.

Fez que não o entendeu, e o beijou...


Traição é lixo.

Cada um tem seu lixo. Dizem até que se forem lá fuçar saberão mais de você.

Besteira, todos os lixos são iguais no final.

Todos os lixos são necessários. Você vai acumulando, juntando, jogando.

Uma hora você quer se livrar dele. Fazer de conta que ele nunca existiu e poluiu sua casa e sua vida.

Esquecer os dias em que manteve restos sem serventia. Restos de amor próprio enganado, assustado, inseguro.

Daí você deixa o lixo aparecer. Para se ver livre dele. Para que alguém o leve.

Levem a minha podridão daqui e façam de conta que não perceberam o quanto ela me foi útil e prazerosa antes de apodrecer.

Quando você menos esperar, já foi.

Deixou-se beijar pensando esse monte de desconexas besteiras e sentindo o momento eterno e sem futuro.

O beijo durou o tempo de mais um monte de neuroses. Assim ela media as horas. 

Mil motivos para trair. Mas sempre a mesma podridão.

Lembrou dele dizendo que isso pode acontecer. Ninguém está livre disso acontecer. Vai depender da distância em que estivermos.

Mais uma vez o obedeceu.

Aconteceu.

"Quem facilmente se ira, fará tolices", lembrou de Deus, da Bíblia, de todos os cadernos que ela já havia escrito. Do ridículo que era casar de branco.

Agora ela tinha um lixo de fazer inveja.

Agora ela tinha um passado e um presente para se torturar. Com a diferença que o lixo dele era recriado para tormento. O dela era ainda vivo e apenas começava seu processo de decomposição. 

Todos os amantes do mundo, lixos do mesmo saco.

Ela o traiu para se igualar ao mundo podre. Para ter uma história mínima que calasse o ódio frustrado de desejar o que era do mundo.

Traiu para perdoá-lo

Traiu por tanta saudade de ser abraçada pelo novo. Pelo que poderia ser perfeito e nunca desgastar.

Traiu por saudade de ser abraçada sem pressa. Sem milhares de programações que atrapalhavam o tempo infinito de um abraço.

Não traiu por desejar o outro. Traiu por desejá-lo muito. Por precisar urgente acostumar-se a existir sem ele. Nem que fosse nos braços de outro.

Traiu para ter um momento seu que não fosse roubado por ele. Estava cansada dele ser o ator principal até das histórias que ela inventava para brilhar.

Traiu por pensar que se beijasse alguém, com tanta intensidade, conseguiria sufocar por um tempo a sensação , desnecessária e maluca,  de que era traída a todos os instantes pelas pessoas que amava demais.

Surpresa.

Ela nunca se sentiu tão traída. Ela sabia, ela tinha certeza.

Um dia ira acontecer. Alguém iria traí-la.

Ela só não sabia que seria ela mesma.


quinta-feira, 27 de agosto de 2020

¿Cadê meu rivotril?

        Semana passada eu surtei e resolvi que ia escrever todo dia. Por enquanto tenho conseguido, mas nem tudo que eu escrevo eu posto aqui. Os anos passaram mas eu continuo escrevendo cartas que nunca vou mandar. E tem dias que é difícil achar inspiração. Tem dias em que os minutos e as horas passam automaticamente devagar. E a inércia pesa no fim do dia. Se eu fosse escritor chamaria isso de bloqueio criativo. Se eu fosse menos obcecado chamaria simplesmente de preguiça.

        Entre a tendinite e alguns planos esdrúxulos, há um zumbido que não me deixa pegar no sono. Mas durmo o menos que consigo. Mesmo quando os minutos são pastosos, eu me apego a eles. No lugar onde fiz meu primeiro estágio aprendi algo muito importante: As coisas não são pra ontem, mas elas raramente são pra amanhã. E um dia de cada vez eu vou me equilibrando na mesma ponte de sempre.

segunda-feira, 24 de agosto de 2020

Uma conta a pagar

        Nem sempre é preciso de sal e areia pra costurar.  Ela pega minha esperança e costura com mais carinho do que eu jamais serei capaz. Era pra ser só um pedaço de pano. Era pra ser só uma noite. Já passou de um ano. Minha esperança está como nova. E eu amo tanto que  às vezes tropeço em mim mesmo.


sábado, 22 de agosto de 2020

Uma partitura em que o compasso não fecha

        Até alguns anos atrás eu passava por um termômetro desses de rua no caminho pra praia. E é basicamente por causa dele que meu divisor pra saber se está frio ou não é 6º. Eu tenho uma foto de camiseta na frente desse mesmo termômetro com ele marcando 6º numa madrugada de inverno. Mas houve outra madrugada em que eu fui pra praia e ele, por coincidência, também estava marcando 6º. Essa foi a noite mais fria em que eu entrei no mar. 

        Minha relação com o frio foi mudando com o tempo. Por muito tempo eu achei que podia me defender dele, mas eventualmente eu percebi que ele não podia me machucar. No fim é uma sensação igual a qualquer outra. 

        Eu já vi geada sobre a areia, mas não tive coragem de entrar no mar quando estava mais frio do que 6º. 

sexta-feira, 21 de agosto de 2020

Algum lugar entre o dórico e as pirâmides

        A vida me dá muitos professores. Alguns eu procuro com perguntas específicas e outros eu simplesmente observo enquanto estão perto de mim. E eles não tem ideia do quanto me ensinam. Hoje é aniversário de um deles. Parabéns Kico.


quinta-feira, 20 de agosto de 2020

Uma revolução traída

        De tempos em tempos eu encontro uma pessoa que é compartilha de uma ideia que eu tenho. Se tivesse sido o Lenin em vez do Stalin teria dado certo. Não o comunismo, mas a União Soviética. Lenin tinha o Tolstoy. Lenin tinha coração e não quis ser chamado de aço, que é o que o nome stalin significa. Em algum lugar aqui dentro eu sempre simpatizei com a Rússia. Foi tanta coisa errada desde sempre. O frio amargurado da síbéria. A revolução feita por homens com coração de meninos. Os Romanov dos quais às vezes sinto pena. Antes dos americanos criarem a NASA, eles já tinham colocado um satélite em órbita. 

        Num 20 de agosto Stalin mandou matar Trótsky, de quem sempre teve inveja. A inveja que o menino burro tem do inteligente. A inveja que o tosco tem de quem é admirado. O assassinato foi bruto como Stalin: um golpe de picareta na cabeça. A atitude de Trótsy, enquanto agonizava, foi determinada como ele fora em toda sua vida: ditou seu  testamento e também artigos sobre estratégia política. Era 1940 e a guerra estava dando trabalho para a morte. 

        Quando leio Dostoiévski e Tolstoi eu sempre penso numa Rússia diferente da que está aí hoje. Essa que os bolcheviques foram destruindo aos poucos. Eu penso na Russia que Lenin e Trótsky queriam.


"Toda revolução parece impossível até que ela é inevitável"

quarta-feira, 19 de agosto de 2020

Asas, né.?

       A Pandemia tá cobrando o preço. A capacidade de adaptação não pode ser desligada e eu fico aqui, confortável em ficar longe das pessoas. Admito que me sinto seguro assim e não me refiro ao vírus em si. Minha sensação preferida é serenidade, mas a ilusão de estar seguro também me faz bem. Minhas partituras e meu baixo não me perturbam mais do que eu eu consigo lidar. 

        Eu preciso de agulha e linha pra remendar minha esperança. E preciso me jogar do penhasco sem ser chutado dessa vez. Percebo agora que não ter medo é muito diferente de ter coragem. Ontem decidi voltar a escrever, um texto por dia. E estudar uma música por dia. Vamos ver por quanto tempo consigo manter isso. Mas começamos devagar. Quando se caminha para o que se quer, direção é mais importante que velocidade. É melhor andar mancando na direção certa do que correr pro lado errado

segunda-feira, 10 de agosto de 2020

Refém de si mesmo


"Meu papagaio estando com fome, se eu der ele come, bolacha ou pão

Tem a razão dos inteligentes, não fala tudo que sente mas entende palavrão."


E o Vento, no fim das contas, não é nada além do que meu papagaio.

domingo, 2 de agosto de 2020

Um dos meus sorriso preferidos

      Quando eu vi isso a primeira vez eu não tinha ideia do que ele estava cantando. Anos depois eu revi esse vídeo com a devida atenção. Afinal, o Zubin Mehta com uma varinha na mão na frente da filarmônica de Nova York e o Pavarotti berrando é um baita time.

         Mas o mais foda de tudo é o sorriso. Não o que ele dá quando termina, mas o que ele dá antes da última palavra. E isso faz todo sentido do mundo: All'alba vincerò . No nascer do sol eu vencerei



sexta-feira, 24 de julho de 2020

Olhai os lírios do campo

        Nunca foi uma vontade de buscar trilha sonora certa. O senhor vê: quem foge de muito precisa correr bastante. Uma catarse de ler até as palavras dizerem exatamente o que eu queria que elas dissessem. Tocar até a tendinite doer o suficiente pra que eu esquecesse todo o resto. E li Julio Verne ouvindo Raul. Érico ouvindo engenheiros. Carlão ouvindo Pearl Jam. Osho ouvindo Doors. Tolkien  ouvindo Purple. Frederico ouvindo Chico Buarque. Clarice ouvindo Racionais. Neruda ouvindo No te va gustar. Cervantes ouvindo Vitor Ramil. E Guimarães Rosa ouvindo Tool. 

     Não fez sentido no passado e não faz sentido agora. Eu não sei como relaciono autores e bandas. Mas sei bem porque faço isso.

terça-feira, 7 de julho de 2020

É só uma poça d'água, mas ainda assim...

       Metáforas, juntamente com transformar água em vinho, são a melhores coisas do cabeludo da cruz. Quando o Potro parou de jogar eu perdi um pedaço. Eu não entendia na época, mas eu competia muito com ele. E me obrigava a melhorar por causa dele. Nunca fomos adversários. Mas ver ele jogar bem me fazia querer jogar bem também. E ver ele curando me tornou mais humano. E curar se tornou minha metáfora jogando quase todos os jogos depois do Warcraft. Eu deveria jogar com a Black Widow no Overwatch. Mas troquei uma sniper francesa por uma velha curandeira. Eu tinha meu raio resolvedor de problemas no diablo, mas acabei virando um monge por duas magias de cura. Certamente o Vento de 10 anos atrás não teria respeito nenhum por essas escolhas. Não sei se isso tudo é pra compensar a falta de tato com minhas próprias cicatrizes ou se veio da idéia de curar os outros na vida real. Sei que sinto falta dele. Entendo porque nos afastamos e que pago pelo meu mantra de que fico na vida das pessoas só enquanto for útil. Mas no meio de tanta gente que é pior que o lixo da vala, eu sinto falta dele. Como ser humano ele julga, é teimoso, xucro e intolerante, mas como amigo ele é magnifico. E certamente é muito mais do que eu mereço. Foi preciso apenas 15 minutos conversando com ele pra entender que certas coisas não vão mudar nunca. 


              Eu precisava mesmo é de um banho de mar. Agora. Com cada onda gelada batendo no meu corpo como se fosse de agulhas. Mergulhar pra se proteger da chuva e ouvir o mar rir da minha inocência. Sentir o corpo surtar e querer se encolher por causa do frio. E brigar comigo mesmo pra manter o controle. Esses dias conversei com a Cláudia (te amo, amor) sobre cada pessoa se definir e se recarregar de formas diferentes. Agora que estou a tanto tempo sem fazer minhas loucuras, eu vejo que aquela insensatez de entrar no mar no meio do inverno, no escuro, sem nenhuma preocupação com o meu bem estar ajudavam um bocado pra que eu me recarregasse. 

            Está tudo bem mais sereno, mas água salgada, areia e vento sempre serão a linha que eu uso pra remendar meus pedaços.


Uma formiguinha


domingo, 28 de junho de 2020

...mas estamos vivos ainda...

       Todos tem as suas maneiras de se ressignificar como seres humanos e de buscar realização. É interessante acompanhar o que acontece com uma pessoa quando ela perde o que define ela como pessoa. Quando a zona de segurança fica inacessível. E todos tem os seus demônios e suas artimanhas para negociar seus pecados. E eu gosto de ver através das máscaras. E toda e qualquer droga que nos torna autênticos porque não conseguimos fingir. Ou talvez porque no fundo a gente não gosta de fingir. 

           Às vezes me roubam o amanhecer, mas amanhã nós voltamos. O diabo me ensinou a não me apegar. Às vezes o vazio pesa no coração. Até sei lidar com decepções, mas sempre sinto raiva do trabalho que as mentiras causam. Ossos do ofício do meu trabalho. Mas só mais essa vida e na outra, depois parece que vou parar de me fuder pra ajudar os outros.

            Queria muito um cigarro. Não por vontade de fumar, mas simplesmente porque sinto falta de queimar a melancolia com nicotina. 

quarta-feira, 17 de junho de 2020

Foi por aqui que eu perdi. Foi por aqui... que eu perdi...

      Acho que desde que me entendo por gente sinto um certa urgência em relação ao amanhecer. Tudo tem que se resolver antes do sol nascer. As coisas quase nunca são pra ontem, mas raramente elas são para amanhã. Eu sentia essa pressa quando não dormia de noite, quando trabalhava de noite e também agora que acordo as 5h. Existe um momento perto das 3h em que eu gosto de sentar e escrever. E há uma paz gigante nisso. Se consigo parar e escrever é porque fiz tudo que queria fazer. Ou não. Às vezes escrever é só meu jeito de sentir tudo em doses homeopáticas. 

          Acho que não perdi meu coração que pensa ou meu cérebro que sente. Mas perdi tanta coisa. Não acho mais meu feitiço, tornei-me pragmático e cético. E eu fico repetindo uma velha simpatia, desde criança.  

sábado, 18 de abril de 2020

Se a música é em E, eu deveria parar de tentar colocar um F7M

     Sinto saudade da mãe da Alice. Eu ouvia ela falando dos softwares pra pilotar helicópteros que ela desenvolvia e na vontade de casar e ter uma casa com cerca branca. Havia nela uma maluquice deveras familiar. Lembro dela quando tento tocar moonlight sonata no Virgílio. Ela sempre ria da minha cara por eu não conseguir. Eu lembro dela quando coloco sonhos na geladeira. E a Alice deve estar enorme.

         Quase um ano de namoro e de repente percebo que estou organizando um levante de sonhos na casa da sogra. Admito que sinto um certo orgulho de ter conseguido. Mas, desde que me entendo por gente, minha alegria vem polvilhada de tristeza por ser como eu sou. Eu consigo as coisas e, de alguma forma,  eu penso que deveria haver outra maneira, outra forma. Às vezes é muito fácil ser eu mesmo, mas às vezes eu queria ser outra coisa. Não sei como é pros outros, mas pra mim é um inferno me ter por perto. 

          São tempos estranhos. Tudo a flor da pele demais. Está muito fácil confundir idéias com fatos. E parece que toda e qualquer decisão carrega o peso de estar inteiramente certo ou completamente errado. Li em algum lugar que a pandemia vai nos unir. Achei fofa essa inocência. O fato é que uns poucos vão ajudar, porque é o que eles faziam desde antes. Mas a grande maioria vai precisar olhar pra dentro e como não vai gostar muito do que vai encontrar, vai soltar as frustrações e tudo que está reprimido nos outros. ¿Mas o que sei eu.? Não me importo quase nada com os problemas dos outros, só resolvo eles porque eles me incomodam muito às vezes. E porque eu gosto tanto de certas pessoas que, se pudesse, sentiria a dor que eles sentem pra eles não precisarem sentir.

       Eu acho tão engraçada essa minha arrogância. Falo como se pudesse resolver os problemas dos outros enquanto digito as 4h da manhã com uma mão só por causa da tendinite e não paro de soar o nariz por causa da rinite.  Não consigo ter regras pra dormir nem me agasalhar direito e nem tocar de forma menos paranoica, ¿como poderia resolver o que quer que seja.? 

          Talvez eu simplesmente não saiba direito como me importar comigo. Talvez o sorriso que eu dou quando aponto o indicador pra minha cara não seja tão verdadeiro quanto eu gostaria.

quarta-feira, 11 de março de 2020

Eu me stresso pra dentro.

        É pra ser só um pouco de nicotina e tabaco enrolados num papel, mas é incrível como faz falta. É pra ser apenas C2H5OH, mas ficar sem beber também me estranha. Eu queria parar de fumar e só enxergava um caminho pra isso: parar de beber. E de repente parei com tudo e fico todo perdido. Não sei onde colocar as mãos. Não sei onde me colocar.  Eu lembro do Osho dizendo que não existe cura porque eu sou a doença. Se a a doença fosse qualquer outra coisa, poderia ser curada. O  único jeito e cessar de ser. Porque não ser é a porta. Não sou mais um fumante, não sou mais um bêbado. E admito que estou com alguma dificuldade pra saber quem eu sou sem minhas bengalas e minhas máscaras. 

       Pego o Virgílio pra tocar porque sei que ele não tem pena. E porque preciso de uma espada pra me defender. Levei muitos anos ensinando ele a não se importar comigo. Eu sinto ele como extensões das minhas mãos e,às vezes, extensão dos meus pensamentos. Não peço pra ele me guiar, mas peço pra me fazer companhia.  E alguém tem que tocar  enquanto eu me perco nas sombras da minha cabeça durante os shows

      Eu sei, eu devia fazer terapia com uma das 123 psicólogas que eu conheço. Mas a verdade é que vou continuar chafurdando nas cinzas procurando o que perdi no fogo.

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2020

Coming through in waves

Texto velho, mas ainda não estava pronto. Faltava uma pequena alteração no final dele

              Eu queria ser autêntico. Dizem que as pessoas se apaixonam por quem é assim. Eu queria saber falar melhor de mim mesmo, sem precisar de máscaras e 3 filtros do photoshop. Queria aceitar melhor os meus medos e as curiosidades. E queria, principalmente, me admitir fraco sem a menor culpa, mas as pessoas não precisam saber disso. O mundo já tem pessoas fracas demais e sinto que não tenho muita chance nesse mercado. Eu queria ser o melhor, para mim, para ti, para nós, mas acontece que eu sempre escapo da estrada boa, tenho mania de precisar passar por muitos buracos e barrancos fora da estrada. Eu sei que nem tudo precisa ser tão difícil e dolorido, mas tem um espaço gigante fora da estrada. Um espaço pelo qual ninguém se interessa. Eu não me sinto bem desperdiçando essa infinidade de possibilidades.

                Quando eu escrevo, falo alto demais, fico sem voz de tanto gritar e pode ser que a pessoa fique surda ou enlouqueça quando não entender nada. Eu queria, também, poder entender melhor, mas não entendo nada, por isso, não se esforce, eu sei que não valho a pena. Talvez eu até valha em alguns dias pares e nas terças-feiras, porque sempre gostei mais deles, mas nos dias ímpares nem a minha sombra vale. Ou vice-versa, não sei se isso é uma regra, ainda não decidi.

               Eu queria ler livros alternativos que todo mundo leu enquanto eu gastava tempo com os clássicos que precisava ler. Saber dançar melhor é outra coisa que eu queria, é impressionante a vantagem  que esse tipo de gente tem. Queria saber mais sobre as ligações de carbono da química orgânica, falar com sotaque espanhol. Queria que a genética fosse mais branda comigo. Um sorriso menos filho da puta e menos cara de quem sempre perde. É, eu queria ter o ar dos vencedores, quem sabe isso pudesse funcionar melhor que minha arrogância emulada.

               Uns poucos que sobraram aqui perto não enxergam quase nada disso e mesmo assim me veem de um jeito que o espelho não me conta. Eu queria ser metade do que veem em mim. Metade do que as revistas dizem que devemos procurar em alguém. Metade do que os meus sonhos pedem nas minhas poucas horas de sono. Eu queria ter mais conversas em vez de escrever cartas que nunca vou mandar.

                  Mas o fato é que sou exatamente isso. E entre linhas, entre erros e acertos, sorrisos tortos e gostos trocados, tudo isso tem dona.

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2020

Ô loco, bicho...

        Tocar bem tem pouco a ver com o quanto eu estudo e sim com 'como' eu estudo. E com a maneira que eu penso. E com o jeito que levo a vida. Fico tocando com o sem trastes a tarde inteira pra depois pegar o Virgílio e achar tudo muito fácil... mas acho que tudo sempre foi mais fácil com o Virgilio.

        E os meus me enchem de felicidade. Meu baterista me manda uma mensagem e antes de terminar de ouvir o áudio eu já estou chorando de orgulho. Às vezes o mundo parece tão errado e de repente acontece algo muito bom com quem faz por merecer. E eu sinto como se as coisas estivessem indo pro lugar. 

         Tem dias que meu trabalho é mais recompensador do que tudo.

terça-feira, 28 de janeiro de 2020

Frases simples e despretensiosas sobre grandes assuntos

"As palavras tem poder."

-FARINA, Cassiano, resolvendo uma treta com um texto moralizador no FB.

sábado, 25 de janeiro de 2020

Joga o D-20

      "Se eu estiver voando alto demais, me derrubem" é um pedido recorrente nas minhas conversas com o invisível e o fato é que é preciso tomar cuidado com o que se deseja. Agora preciso me olhar no espelho com esse ar de decepção e raiva. Aqui dentro tudo está confuso e eu me sinto como se estivesse jogando um dado pra fazer um teste de vontade. Preciso ficar longe do diabo. Parar de beber parece ser um bom caminho. E parar de tolerar o intolerável soa quase como uma ordem.

       Às vezes eu sinto que meu coração se aninha em outra pessoa. Acho que é nesse momento que eu sei que é amor. É quando a saudade incomoda tanto que coça. É quando mesmo uma noite de merda deixa lições importantes. A tempestade ainda sopra do paraíso. Não consigo mentir. Lealdade é um hábito terrível. 

        Estou indo ver o mar. Porque não importa o que aconteça, meus pedaços eu colo com água salgada.  Levanta, sacode a poeira, dá a volta por cima.  E volta a ler o mesmo livro pra ver se dessa vez aprende. Pra ver se a ressaca moral passa mais rápido.

        "O que nem foi julgamento legítimo nenhum: só uma extração estúrdia e destrambelhada, doideira acontecida sem senso, neste meio do sertão. Ah, mas no centro do sertão, o que é doideira às vezes pode ser a razão mais certa e de mais juízo. Sertão é isso: o senhor empurra prá trás, mas de repente ele volta a rodear o senhor dos lados. Sertão é quando menos se espera; digo." - GS:V

segunda-feira, 2 de dezembro de 2019

Eu sei bem porque faço o que ninguém me pede pra fazer.

     Trabalhando em teatro, vejo incontáveis apresentações de escolinhas infantis. Eu lembro de uma apresentação especifica de quando eu estudava e era obrigado a pagar esse vale na qual eu percebi não importava o que eu fizesse, não ia fazer diferença nenhuma. Provavelmente essa ideia deu demasiada liberdade pra crianca retardada que eu fui.

        Ainda sobre a fauna do teatro, a vaidade é o pecado que mais me diverte. E, falando em diversão, eu sei que em algum lugar alguém ri de mim quando uma menina de 6 anos com chifres de rena me manda um video e eu choro bobo. Uma criança gostar de mim é  algo que simplesmente implode meu jeito de me enxergar. Eu me reconstruo do jeito que dá é fico aliviado porque ninguém me ve aos pedaços. E quem consegue ver não se importa nem um pouco com meu estado fragmentado.

          Eu vou cumprir a minha parte.. Nessa vida e na outra..até porque não sei ser de outro jeito. Mas até onde me consta, a parte de vcs esta paga. Vcs me deram um mestre quando eu estava além de qualquer vontade de redenção. E a dor nao machuca mais, embora ela ainda me odeie. E não venham me falar sobre Lucas 6,40.. Já ficou bem claro que as regras do trabalho não estão escritas na bíblia.

       Uma ordem simples, mas não tinha como ela ser facil. "Torna-te aquilo que tu és." Não que eu tenha adiado, o fato é que eu não tinha ideia do que eu sou, não sabia a o que devia me tornar. E foi bem foda caminhar sem saber onde queria chegar. Tanto que na maioria das vezes eu simplesmente seguia pra me afastar de onde não queria estar.

segunda-feira, 18 de novembro de 2019

Só mais nessa vida e na próxima...

       Não parece mais ser medo. Mas continua sendo uma percepção diferente da da realidade. Sinto o acaso dando hadoukens por aí me ajudando. Ando tão a flor da pele que qualquer peça mal encenada me faz chorar. Baixar a cabeça ainda é um hábito difícil de abandonar, mas olhar pro horizonte parece ser o certo.

         As vozes não calaram a boca. Estou a quilômetros da serenidade que tanto quero. Mas ainda assim, estou bem. Eu sou daqueles que sempre olham pra as tempestades com esperança. Existe um campeonato de ironias com o único acima do fato de um que sempre barganhou e trabalhou com demônios namorar um anjo é minha jogada.

           Um anjo e um demônio andam de mãos dadas comigo. E com eles juntos de mim, os planos estão se juntando cada vez mais.

             Faço uma show com o Virgílio e não consigo parar de rir. Tinha esquecido como ele toca sozinho e de como meus dedos sabem os lugares exatos das notas sem que eu precise olhar. E tenho um baterista que sabe que quando eu me sinto um bosta eu leio Nietzsche.

               Não vou nem discutir, mas vcs sabem.que eu não mereço nada disso né.?

quinta-feira, 3 de outubro de 2019

Escopo


        Certas coisas me tocam. Às vezes aquilo que a gente mais teme se joga no nosso colo. Mas às vezes a gente tropeça em pequenas coisas cheias de significado que indicam que estamos no caminho certo. Os sinais funcionam melhor quando estamos prestando atenção neles. O problema é que volta a esperança pra me amaldiçoar. Enquanto espécie somos o lixo da vala, mas sob as circunstancias certas, uma única  pessoa é capaz de coisas incríveis. O único acima não me paga pra fazer o que eu faço, então..  quando presencio essas coisas,  considero uma gorjeta  merecida. 


        No meio do inferno de uma apresentação com 200 pirralhos correndo e me dando trabalho,  eu vi dias duas meninas abraçadas. Aquele abraço que da força. E elas só ficaram abracadas ali esperando pra entrar no palco. Era só um abraço, mas eu lembrei de mim com 12 anos. Era sozinho porque não sabia ser de outro jeito. E como eu sentia falta desse tipo de abraço. 

        Talvez seja só meu lado triste se sentindo incompetente de novo. Ultimamente, cada  vez que alguém me pergunta porque estou estranho, eu queria realmente conseguir explicar que está tudo bem.  Eu estou feliz, mas existe um erro que permanece inadmissível. Eu improviso e parece que tenho certeza do que estou fazendo, por que o acaso joga comigo...mas a verdade é  que nunca me perdoo  quando não me preparo. E tomo chá com minha raiva. Por que sorrir sempre me da trabalho.

           E ja é 2019.. semana passada era 1993

sábado, 21 de setembro de 2019

Talvez eu tenha iluminado a coisa errada

        Eu sempre dei nome para as coisas com as quais converso. O nome do meu baixo é Virgílio. Porque Virgílio foi o guia do Dante enquanto ele atravessava o inferno. Tocar nunca foi sereno pra mim. Às vezes eu estou no palco tocando e me sinto como quando a gente está no mar e toma uma onda grande na orelha e se esculhamba todo rolando no turbilhão de água. Eu sabia que precisava de algo que conseguisse tocar sozinho e que me segurasse quando eu estivesse prestes a desmoronar. Ou que risse comigo quando eu abro um sorriso e fico invisível no palco.  Ontem fugi com o Virgílio e fiquei sentado no chão tocando baixinho. A paz não vem de graça. Acabei adiando as coisas sérias que eu precisava fazer e negligenciando as coisas de adulto também.

           Acordei cedo pra colocar as tarefas em dia, mas vem a minha senhora e monopoliza minha manhã. E antes que eu me desse conta ela estava discutindo com o Peca sobre pés de Maracujá.  Acho lindo eu precisar de ajuda e vocês me mandarem ela. E ela me coloca nos trilhos de novo sem cerimônia nenhuma enquanto conversa sobre os problemas dela. 



           E eu recarrego minhas baterias.  E me sinto pronto pra tocar. Com os olhos cheios de água, mas com as asas abertas, hoje naquele palco eu não vou ser vítima.  

sexta-feira, 20 de setembro de 2019

Acabou a folga, volta pro trabalho!

        Às vezes a gente joga bem e perde. Acordei com essa frase gritando na minha cabeça. Não que eu tenha perdido, mas me sinto derrotado. Mil coisas pra escrever e pouco tempo pra organizar as ideias de forma coerente. Tenho raiva da minha passividade. 

           Queria muito dar uma desculpa pra mim mesmo e dizer que depois que esse caos passar eu me ajeito, mas o fato é que o caos não vai passar nunca. Nunca melhora. No meio de tudo isso eu vou continuar dizendo que me chamo vento e que meu trabalho é apagar as fogueiras menores e tornar as grandes ainda maiores. E vou continuar gritando 
NUNCA ME CONCEDA DESCANSAR.

          Tenho meu chimarrão, meu baixo maquiavélico, os meus. Os meus dois cães de guarda seguem fiéis. Tenho a Claudia. Estou melhor do que jamais estive, mas ainda existem coisas quebradas aqui dentro que eu não consigo consertar. Não sinto falta de estar triste, mas eu sei que certos castelos de areia eu não posso derrubar.

quinta-feira, 5 de setembro de 2019

O pingo tranqueava largo

     Sempre que começa agosto o Tiago e o Vento sentam e conversam tentando se entender. Talvez seja a euforia do momento, mas esse parece ser um dos melhores agostos que eu consigo me lembrar. Muito trabalho com os meus. A Jeane me contratou. A Claudia. A Cíntia. O Duda. O Caldo. O Bledo.  Em algum lugar, alguém parece empenhado em me deixar bem. O acaso té se puxando.

         Na minha cabeça é o Ken ganhando do Akuma de novo. 

        E o diabo não pode mais me perturbar, mas eu seria muito inocente se achasse que ele é a pior tentação. Felizmente eu não esqueci de certas coisas, e continuo acreditando que fugir de algo que não estou em condições de enfrentar é uma ótima estratégia. Eu não fujo por medo, essa é a única regra que estabeleci. Fora isso,  é sempre melhor fugir de lutas em que não tenho nada a ganhar e muito a perder.

         E agosto foi assim. Como sempre, não resolvi metade do que precisava resolver entre o Vento e o Tiago. Ainda sinto raiva do arrombado. Ainda quero bater um tiro de meta na buceta de uma guria. Ainda acho que não mereço nada disso que se sucede comigo. Eu queria sacudir os escombros das minhas asas como um cachorro se sacode pra se secar. Eu queria não ter tanta vontade de chorar.

      O fato é que um anjo e um demônio andam comigo. E de mãos dadas a gente sai desse agosto mais forte. Eu cantarolo Vitor Ramil e é como se isso me desse aval pra voar de novo.

segunda-feira, 29 de julho de 2019

Olááááa, Enfermeira!

                  Anos atrás, ela me disse que eu parecia um desenho animado. Eu não entendi muito bem o que ela quis dizer, mas acho que isso aqui explica mais ou menos a idéia.  E isso é interessante porque os pensamentos da gente, se conectam de forma misteriosa. A mesma pessoa também me disse que eu precisava entender que opiniões sempre estavam carregadas com a bagagem pessoal que cada um carrega. E,  se eu compreendesse isso, todos os julgamentos não perturbariam mais. Eles não são julgamentos, são confissões.

                 E poucas vezes nessa vida uma bruxa teve poder pra barganhar comigo. O que me lembra que na época achei absurdo receber ordens de uma, ao mesmo tempo que fiquei fascinado por alguém usar o imperativo do verbo ser do jeito certo.



              "Seja verdadeiro. Seja honesto. E se você não conseguir ser nada disso, seja pelo menos gentil. O mundo precisa de gente da tua laia." Assim terminava uma carta de 1998. Olhando pra trás eu percebo que deveria ter obedecido mais essa ordem. Mas percebo também que o acaso no desistiu de mim. E que anos tentando me esconder não tiraram  o desenho animado de mim. E por aqui e e por ali continuo esbarrando em pessoas que me tratam muito melhor do que eu mereço. Continuo grato por poder ajudar os meus.  Existe essa turma de pessoas boas que tornam o mundo melhor. Alguém tem que cuidar desse tipo de gente, eles são tão raros. E 3 meses de namoro. Eu rio sozinho cada vez que ela fala que é minha namorada e as pessoas olham pra ela como se ela tivesse dito que nasceu em marte. 



domingo, 7 de julho de 2019

Pinot Noir


         Quando eu pensei em morrer, plantei uma plantinha que nunca mais vou conseguir arrancar. Eu mantenho ela sobre controle, mesmo sabendo que talvez eu não tenha como vencer. Mas agora eu sei que um dia, quando eu estiver bem velho e chato.. eu poderei sentar na sombra dela e me consolar... a gente sempre se consola.

         Cuidar dos meus é  um trabalho que me leva a lugares peculiares. E ser tratado que nem cachorro num open bar de vinho na capital do vinho faz sentido dentro desse trabalho terrível que é a música.  Música é  perfeita enquanto arte e catarse.. mas como trabalho é só perrengue.

          Volta pra cada e escreve, mas eu deveria estar na praia..  estou perdendo uma geada lá.  Mas tem convites  que são essencialmente irrecusáveis.  Espero que a cola aguente e que uma menina de 6 anos não force demais as costuras.  Tem coisa demais aqui dentro e no frio não chove. Pelo menos estou fora da jurisdição do Diabo, ao que parece.

quinta-feira, 27 de junho de 2019

Não importa

      Pensei em mandar uma linda carta que começaria com "Então, sua trouxa...". Mas o fato é que o trouxa da história sou eu. A experiência cansou de mostrar que quem brinca com crianças eventualmente sai mijado. E não poderíamos esperar nada diferente de alguém doente que vive de aparências e gerencia a vida e as pessoas como se estivesse na 5ª série. 

     Nessas horas eu me lembro que vento não é um apelido; é um trabalho. As fogueiras pequenas eu faço desaparecer e as grandes eu torno ainda maiores. Ter pena de uma pessoa não torna ela melhor. Nem a deixa menos asquerosa. 

    Raramente escolho a forma como me agridem. Então, me dou ao direito devolver a agressão do jeito que achar melhor. 

     É notório que eu me defendo batendo. E que a dor que carrego comigo me ensinou a bater onde dói.

sábado, 22 de junho de 2019

Há tempos

      - Que horas a gente começa.?
      - AGORA.
      E eu subo no palco meio correndo. Solto meu meio suspiro/meio sorriso enquanto afino o Nico e aviso que talvez ele precisasse tocar sozinho em algum momento. Vejo um sorriso que em deixa leve. As asas coçam. A tempestade que sopra do paraíso não pesa mais. De alguma forma, eu fui feito para voar no meio do caos. 

    Camila bateu forte e me trouxe pro chão, incontáveis noites eu passei chorando e esperando amanhecer. Mas foi uma frase do U2 que me faz desmoronar como um castelo de cartas. "Então você se dá". Deixei meu baixo tocando enquanto fiz o que faço de melhor em cima de um palco. Eu sorri e fiquei invisível. E chorei até sentir as lágrimas quentes escorrendo no rosto. E ninguém me viu. É vaidade, eu sei, mas fiquei muito feliz por ainda saber fazer isso. Por mesmo depois de tudo ainda ser capaz de me reconstruir mais rápido do que eu me desmonto. 

       Acaba o show, enrola o cabo e vai pro outro show. Ainda pensei comigo: "O trabalho foi, agora é a festa". Chega correndo, pluga e sai tocando junto com o Bledo. ¿ O que mais eu poderia querer.? Ainda vi minha irmã sentada no colo da minha namorada. Tudo parece estar indo pro lugar. Mil elogios pra ela e poucos pra mim. Tudo realmente parece estar no lugar.

        Calma, Mar. Assim que a alquimia mudar, sem falta eu colo aí. Eu sei que já passou da hora.

terça-feira, 14 de maio de 2019

Troco controle por paz, mil vezes

     Eu gosto de pensar que a Morte é uma menina com um Ankh no pescoço e um olho de Hórus mal pintado no olho, mas isso é ridículo. Fora o Destino, ela é a mais velha dos perpétuos. Gosto de pensar que ela não entende muito bem o trabalho, mas dizem que a cada cem anos ela passa um dia como mortal, ao fim do qual ela morre. Tudo para compreender melhor a sua missão. Eu gosto de pensar que somos amigos, e que teremos uma conversa agradável quando chegar a hora. E que ela cuida bem do meu cavalo. 


     Lembro de tudo isso quando esbarro no trabalho dela. Eu queria poder quebrar as regras e roubar a dor das pessoas pra mim. Não de todos, só dos meus. Tem pessoas boas demais nessa lista e eu queria poder fazer mais por elas. Ninguém está pronto para perder um pai.

      E aí o baterista manda um áudio quando eu estou tentando consolar o inconsolável. Velórios cristãos me fodem. Mas em algum lugar, alguém achou importante me manter otimista.. me lembrar do que realmente importa.  Alguém achou importante me lembrar que a ordem de mudar foi foda, mas que eu não estou sozinho. Que depois da madrugada escura e fria existe uma linda manhã de outono. Eu marquei uma pedra de tanto que escrevi nela que teria justiça e paz, mas preciso admitir que as vezes era foda acreditar que existia um caminho. 

         Sobe o elevador pra falar com a gerência. Não adianta nada termos regras se elas são extrapoladas. De novo, eu tive o que eu mais queria ao preço de uma mentira. E, de novo, mentir não foi sequer cogitado. As experiências repetidas tem uma única finalidade: ensinar o que não foi aprendido da primeira vez. Sendo assim, eu só queria perguntar que tipo de lição eu deveria aprender. A resposta foi muito mais direta e esclarecedora do que o normal. "A lição não é pra você, é pra nós". Um anjo e um demônio andam sempre comigo. E nem nos meus melhores devaneios de importância eu achei que eles poderiam aprender alguma coisa comigo.

domingo, 5 de maio de 2019

Quando o discípulo está pronto, o mestre aparece.

        Colocaram uma força tarefa pra me dar suporte e eu fui adaptando o plano da melhor maneira que pude. Às vezes a gente faz a coisa errada e se sente bem. Às vezes a gente faz a coisa certa e se sente um merda. Faz parte do jogo. E eu estava ali pra ganhar.

       Não teria como contar tudo que eu carreguei comigo quando subi naquele palco. E todas coisas ruins que larguei antes de subir. Eu fui feliz o suficiente pra irritar as pessoas ruins. Antes de tudo, o Nico perguntou se eu iria tocar. Respondi que ia tocar cada nota. E ia colocar tudo em cada uma delas. Elas tinham destino certo. No meio do show eu senti o coração ficando pequeno. Soltei o cabelo na cara torcendo pra ainda saber ficar invisível. E entre suor e lágrimas eu sorri e ninguém mais me viu.

       Foi preciso que deitassem nas minhas asas pra que eu lembrasse que elas não servem pra varrer o chão. Da outra vez a Ostra me chutou do abismo pra que eu voasse.. Dessa vez eu precisei me jogar por conta própria. O acaso me ajudou de formas que eu nem imagino, mas eu li  claramente os sinais enquanto parecia só um baixista inconsequente. 

       Cheguei em casa e fiz chimarrão. E quando amanheceu tudo estava no lugar. A serenidade que eu tanto pedi, ao meu alcance. Não posso resolver todos os problemas dos meus, mas creio que já faço uma grande coisa não criando mais problemas para eles. Quando a ordem de mudança vem, a gente muda. 

           A Carmem me deve um livro. Até lá eu volto pros mesmos livros de sempre.



Aee Frederico.. Vamoooo

segunda-feira, 29 de abril de 2019

A colheita é comum, mas o capinar é sozinho

          Já faz algum tempo que não escrevo aqui. Estava tudo morno, mas do nada acontecem coisas que mudam tudo. 

           No sábado eu carregava os estragos da sexta, e sai de casa atrasado, mas nada absurdo. Era o suficiente pra que eu me sentisse incompetente. Chegando na bier eu encontro o Leko. Por falta de definição melhor, o Leko é a versão humana de um antidepressivo. Eu me sinto bem todas as vezes que encontro ele. E é engraçado porque ele não tem idéia do quanto me ajuda. Era um baita plano. Eu entraria com o coração e ele entraria com a técnica. Seria foda. Passamos o som como quem não se importa, mas ele ficou ótimo. Nossa.. que surpresa.. era a Jack band.. eram os meus. É lógico que eu ia fazer tudo ao meu alcance pra deixar o som bom. No fim  eu tinha uma janela de 2 horas. O plano de ir pra casa ficar sozinho  era atraente. Mas o convite "fica, vai ter pizza" mudou tudo. E lá fiquei eu sem zona de segurança.

          Pontualmente as 21.30 coloquei o Maurício no palco. Como músico sou tosco, mas como diretor de palco sou implacável. Havia um horário e ele seria cumprido. Depois corre daqui e dali pra ganhar 15 minutos e colocar a Jack Band no palco. Tudo estava estranhamente normal quando eu me perguntei onde estava a mágica que eu tanto busco, parece que o Mauro me ouviu. Tocaram Enjoy the silence. E enjoy the silence tem uma letra daquelas que me desmonta mais rápido do que eu consigo me reconstruir. Eu realmente tinha tudo que precisava ao alcance das minhas mãos.

          Pára tudo (eu sei que não tem mais acento, mas  foda-se) . Aparece um sorriso igual o do Mauro. O signo certo. ¿Quantos anos.? 4? 5? Mil coisas passando na minha cabeça e uma frase do Grande Sertão: "Sertão é isto: o senhor empurra para trás, mas de repente ele volta a rodear o senhor dos lados. Sertão é quando menos se espera”. Eu normalmente racionalizaria e fugiria, mas não hoje. Eu sai de casa para ventar e não iria abrir mão dessa condição. E diante de qualquer julgamento de cunho moral, eu responderia com a mesma frase: "Nunca é alto o preço a se pagar pelo privilégio de pertencer a si mesmo.” Com ela eu me justifico.

          No fim de tudo, quando eu cheguei em casa e sentei na chuva, a chuva caiu e escondeu minhas lágrimas enquanto eu sorria bobo. Eu amo tanto a chuva que daria nome pra cada gota que cai, assim como nomeei os tijolos daquele prédio do lado do Galleria. Você me deram muito mais que eu merecia. 

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2019

Ventando

     É um novo trabalho, mas chego nele com os estragos de tudo que veio antes. E com as lições que os tombos deixaram:

     Não forçar o momento de soltar a flecha por medo de perder o fôlego.

     O momento em que somos mais facilmente manipulados é justamente quando tentamos manipular.

Sun Tzu


quarta-feira, 6 de fevereiro de 2019

¿como cheguei até aqui?

      Durante a vida, fiz incontáveis piadas sobre os caxienses acharem que a festa da uva é grande. Na minha cabeça sempre foi uma festinha minúscula numa cidade pequenas com rompantes de grandeza. Mas o campeonato de ironias com o Único Acima não dá folga e já no primeiro dia de trabalho eu tive que dar 4 voltas pelos pavilhões. É tudo relativo, eu sei, mas não tenho mais coragem de dizer que isso aqui é pequeno.

     E, pra fazer tudo isso acontecer, de alguma forma juntou-se um time invejável. Olhar pro lado e ver os meus trabalhando e fazendo a festa sair do papel é mágico. E assim como foi no festival de blues e em alguns outros trabalhos especiais, não sobrou muito tempo pra que eu hesitasse ou ficasse duvidando de mim mesmo. A mesma regra: nada é pra ontem e quase tudo é pra agora.

   O tamanho do trabalho é assustador, mas de alguma forma, meu amor ao caos me mantém ainda de cabeça erguida. Os gigantes que tantas vezs me fizeram enxergar estão aqui comigo, alguns não fisicamente. O Mauro se estivesse aqui me entregaria uma cerveja bem gelada sem dizer uma palavra. A Ana colocaria um cigarro na minha boca porque sabe que eu esqueço de fumar quando entro na bolha. O Fer Costa me daria um tapa na cara e me mandaria não parar de sorrir.

    Não parar de sorrir. Admito que esse é o único plano que eu me permito ter no momento. Provavelmente esse é o único plano que vou precisar até o fim da festa da uva.



Nas incontáveis voltas que já dei nesse espaço,
a escada do coreto até agora é meu lugar preferido.

terça-feira, 22 de janeiro de 2019

Para o leste




               Isso foi ontem, no fim da tarde. Automaticamente parei na janela, e pensei como se estivesse perguntando:  ¿Temos tempo pra mais uma dança?  Resolvendo umas últimas tretas,  olhei  pro céu e percebi que estava atrasado, mas se eu dirigisse como um idiota, chegaria no mar antes da Lua.


            Cheguei. E com os pés descalços na areia eu entrei em acordo comigo mesmo. Existe um jogo que eu não posso ganhar. Mas os outros são meus.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2019

A montanha não tem nenhuma chance

        Numa carteira de cigarros meio amassada, no domingo de manhã eu rabisquei  algumas palavras pra escrever sobre elas depois. Foi no curtíssimo período entre chegar em casa e me jogar na cama.

O que consegui entender da minha letra de bebum foi isso:

Lua cheia na véspera

Chuva. logicamente.

O Virgílio tocou muito. Eu sorri e fiquei invisível.

FINALMENTE

         Lembro que estava com um sorriso enorme quando escrevi. Meio molhado de chuva, meio bêbado. A sensação de missão cumprida misturada com "¿eu mereço tudo isso?". O que eu não sabia era que ia me envolver numa treta sem pé nem cabeça nos minutos seguintes. Mas é bom pra lembrar como funciona tudo. É um bar, o trabalho é literalmente uma festa, e é melhor guardar as coisas particulares para si onde se trabalha. É uma pessoa fantástica, mas gerencia certas coisas como se estivesse na 5a série.

        O fato é que nada daquilo pôde (pode) tirar o sorriso de mim. E eu ganhei um show com a Gil Vargas de presente no domingo. Só pra ser infinito. Só pra terminar o fim de semana num palco. Sorrindo e ficando invisível mais uma vez. A mágica no absurdo. 


sexta-feira, 18 de janeiro de 2019

Eu ainda não posso ganhar

         Recém passou da meia noite e estou esquentando a água pra terceira térmica do dia. Eu deveria dormir. Deveria fazer as pazes comigo mesmo pra dormir melhor. Mas o fato é que eu não sei dormir. E não tenho erva mate suficiente pra  fazer as pazes com quem quer que seja. Preciso mesmo de água salgada e areia pra remendar certos pedaços. Sempre fico triste quando certas coisas quebram e eu não sei consertar. E ainda existem coisas aqui dentro que eu não sei consertar.

        Há uma frase que eu repito na minha cabeça quando caio um tombo: Levanta. Sacode a poeira. Dá a volta por cima. Eu nunca fui muito gentil quando converso comigo mesmo, então essa frase soando como uma ordem serve muito bem no meu jeito de pensar. Tirei ela de uma história em quadrinhos do Logan. 

      Mas o que fazer quando a poeira não está no corpo, e sim na mente.?  E porque diabos eu lembro nessa frase durante um banho de chuva épico.? Tento me convencer que fazer 20km pedalando embaixo de um dilúvio tem a ver com capacidade e não com sentir raiva de mim mesmo. É lógico que falho miseravelmente.

      O Bledo tem razão quando fala que eu virei outra pessoa quando comprei o baixo novo. Nós músicos sabemos bem que conforme vamos tocando melhor, vamos também nos tornando pessoas melhores. Quando alguém duvida dessa teoria eu aponto pro Caldo e as pessoas entendem o que estou falando. Mas eu ando precisando do Virgílio. O fender soa  melhor, isso é inegável, mas o inferno fica melhor quando tenho alguém pra me guiar nele. Quando estou no palco e fecho os olhos pra chorar melhor, é o Virgílio que grita comigo pra manter as notas soando no lugar. Segurei ele incontáveis vezes, e acho que só confio nele pra me segurar quando eu mais preciso.

      Aprendi com o tempo é que as pessoas costumam confessar suas fraquezas apenas pra aqueles que as deixam mais fortes.Vejo minha senhora tirando a máscara e meio sem jeito falando das fraquezas dela. Sinto um certo orgulho em pensar que eu a deixo mais forte, assim como ela faz comigo. E pessoas que não julgam são tão raras hoje em dia. Vou pegar as minhas e segurar firme para não perder mais nenhuma. Mas é bobagem minha, sei bem que algumas vão embora quando eu não for mais útil. As ondas não vão parar, como disse o mar.


Falando em mar, NUNCA ME CONCEDA DESCANSAR!

segunda-feira, 24 de dezembro de 2018

Tu é o ar em movimento


          Praia, no meio da semana, só porque eu posso. E também porque precisava de sal e água pra consertar meus remendos. A alquimia estava me levando pro leste. E terminar o ano não seria nada fácil. Se nem o Diabo nem minha senhora estariam comigo, eu estava disposto a conseguir ajuda especializada.

         Deitado na rede eu senti uma sensação familiar. O mesmo sobre salto que eu sentia quando uma das minhas aranhas estava pelo meu quarto e andava perto dos meus pés descalços. Olhei pro chão perto do meu braço e vi um escorpião. Eu sabia que não ia morrer mas que se aquele merdinha resolvesse me picar iria dor MUITO. Lembrei da história da rã atravessando o rio. Acabei pegando no sono sem mexer o braço, enquanto divagava sobre o quanto precisamos ser o que somos. O quanto queremos. E o escorpião deve ter ficado ali pra se proteger da chuva. 

         Na noite seguinte, depois de um dia infinito, sentei na beira da praia antes de subir a serra, ela chegou e sentou na duna um pouco mais acima, escorando as pernas em mim. E eu achei incrível a maneira como ela conseguiu fazer isso de forma não sexual. Ela começou a mexer no celular e de repente eu percebi que ela estava fazendo a mesma coisa que eu fiz incontáveis vezes: usar as palavras das pessoas contra elas mesmas. 

        Achei ótimo estar escuro e ela estar atrás de mim. Nunca lidei bem com pessoas me vendo chorar. Ouvir meu texto em terceira pessoa e com outra voz foi estranho, mas olhando pra trás agora, percebo que era exatamente o que eu precisava ouvir. As vezes o mundo bate tanto que a gente não consegue parar pra manter o foco no meio do caos.

     Ironicamente, dias atrás eu escrevi uma carta que não mandei. Era pra uma ex namorada e falava sobre a importância de não esquecer aquilo que somos. Mais uma vez, a carta era pra mim mesmo e eu não percebi na hora. 

        Já no domingo, depois de tudo, quando eu deitei na cama, liguei pra agradecer. E eu tinha que descobrir uma coisa. Obviamente ela conhecia meu texto. Quando escrevi ele uns dez anos atrás ela já estava por perto. Mas eu queria saber que frase ela tinha usado pra pesquisar ele. E agora não paro de rir da minha própria arrogância: ela só precisou aqui e procurar por "me custa creer". 

         Eu sempre voltei pro chão caindo. E já que o céu vai ter que esperar... talvez seja a hora de aprender a pousar sem me arrebentar.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2018

Frases simples e despretenciosas sobre grandes assuntos

"Eu gosto muito de ti. Nem parece que tu é de Caxias"



- FARINA, Diogo, 
em um dos melhores elogios que eu poderia ouvir.