segunda-feira, 19 de outubro de 2015

As estrelas estarão no mesmo lugar

      O tempo sempre é relativo. A noite sem dormir durou um ano. A manhã inteira trabalhando passou em 5 minutos. Tentei dormir depois do almoço que não almocei e passou mais um mês. A tarde durou dez minutos com direito a uma pausa pra chuva. 

          Não posso negar que estou me sentindo em casa aqui em poços de caldas. A cidade é virada em morros e eu consigo ver neblina ao redor da cidade quando amanhece. Estar em uma cidade serrana depois de tudo me faz bem. E aqui tem um X muito bom e absurdamente grande. Essa semana já tenho como me alienar. As conversas comigo mesmo não estão muito prazerosas.

         Sempre teremos engenheiros quando o caminho começa a sambar fugindo dos meus pés. No mais, nunca me conceda descansar. 



domingo, 18 de outubro de 2015

Vergonha alheia de mim mesmo

            Não vou falar muito da viagem porque seria chover no molhado. 1500km de carro sempre são maçantes e monótonos. Quero falar só de um encontro absurdamente casual que aconteceu em Campinas.  Num starbucks randômico sem combinar nada eu dou de cara com o Grosso (vulgo Gabriel Dalsoto.)

Sobre o cusco, peço desculpas ao povo gaúcho por representar tão mal a querência. E nem que eu quisesse eu conseguiria explicar a incrível sequência de eventos que  colocou a coleira do cachorro de madame na minha mão. Sempre haverá um nome a zerar.

Pra que eu aprenda o meu lugar

          De novo. Eu repito isso pra mim mesmo com uma mistura de riso e pena. ¿Quantos tombos eu vou ter que cair para aprender.? Será que um dia o mundo vai perder a paciência e desistir de tentar me ensinar o que eu não consigo aprender.? Ou será que um dia acontecerá um milagre e eu aprenderei essa lição que o mundo tenta com tanto esmero me ensinar.? Acho engraçado como as coisas acontecem. Saí de casa ontem acreditando que tinha tudo, que podia tudo. Mas é nessas horas que estamos mais vulneráveis. E agora, menos de 24 horas depois me sinto derrotado. Não que eu me culpe por ser como sou. Mas preciso encarar o fato de que certas brigas eu não posso vencer. Preciso aceitar que meu passado não é bonito e nem em sonho ele vai deixar de voltar para me assombrar. 

          Mentiras. Sempre serão as mentiras. Deve ser karma. Quem luta pela palavra será ferido pela palavra.. Ironicamente o maior medo de um mentiroso é que mintam pra ele. Não existe confiança pela metade. E sem confiança não há amor. Pelo menos essa parte eu já tinha aprendido antes. Nem lembro mais a definição certa de traição. Eu continuo repetindo pra mim mesmo que traição é o que não se espera de quem não se espera. E todo mundo tem um plano até ser atingido. Bom hoje de tarde apanhei pra caralho.

         Eu abro A Arte da Felicidade só por causa do marcador de pagina, mas nem sei porque teimo. Cativar é uma palavra complicada. Tenho certeza que ela já foi mais simples. Fechei o livro sem ler uma página sequer. É óbvio que nessa vida eu nunca vou conseguir ler. Fica pra próxima. Ou pro próximo Dalai Lama. 


Imagem meramente ilustrativa.

quinta-feira, 8 de outubro de 2015

Vamo lá produções

       De dentro de uma lancheria sai um cara com uma chapéu gigante de cowboy e uma fivela de uns 10 cm de diâmetro. Ato contínuo, procurei com os olhos um cavalo amarrado. A figura em questão  só podia estar de "a cavalo". Bom, ele não tinha um cavalo, mas tinha uma Brasília. E saiu acelerando a brasília. E o motor da brasília ecoou pela rua tal qual um relincho. O que é pra ser, é pra ser.

      Acabei num hotel estranho. De novo. Tem piscina e atendentes que desaparecem, mas os traumas anteriores continuam me deixando com o pé atrás. Uma das lições que essas viagens me ensinaram foi que um lugar chamado de "pousada" normalmente possui algum defeito estrutural que fode a estadia.  A pousada que estou agora possui um zumbi que fica andando a noite inteira batendo portas. Pelo menos essa foi a melhor explicação que encontrei pro barulho e para as vozes das madrugadas. E nada de ar condicionado. Dormir com ventilador ligado fez meu corpo lembrar das noites que passei em porto alegre. E minha cabeça dormir inquieta. 



        Antes de chegar aqui passei em Campinas pra tomar um starbucks e pra tentar encontrar uma amiga minha desde sempre que eu chamo de uruguaia. O mundo me deu algumas pessoas que estragam meu dia quando falam comigo, mas em compensação também me deu pessoas que eu olho e sem perceber estou sorrindo. A uruguaia está nesse segundo grupo. Mas, ao que parece, é minha sina perder pros tcc's

        Tiro algumas lições de profissionalismo dessa semana. Uma delas vem do chefe que resolveu aparecer pra dar um conferes no andamento do projeto. Depois de uma brincadeira ele soltou a resposta sem hesitar. "Pode falar mal, desde que trabalhe bem". A outra vem do churrasqueiro Jedi - que também faz uma massa com bacon excelente: "Não cria um problema pros outros quando for resolver um problema teu." Outra coisa que vejo nitidamente é que existe uma diferença gritante entre querer estar certo e querer convencer os outros que vc está certo.

      A peça dos bonecos da manhã tinha sido um caos, um monte de crianças mal educadas gritando e várias professoras tendo a vida sugada pelo whatsapp sem organizar nada. Ainda assim chegamos ao fim sem maiores problemas além de uma irritação que se refletiu em toda equipe. Durante a tarde, outras crianças e outras professoras na platéia, mas o cenário era o mesmo da manhã. Faltavam 5 minutos pra começar e eu vi um palhaço em cima do palco, sem máscara, sem personagem, sem nenhum boneco na mão. Só o sorriso. Fui correndo pra mesa de som porque alguma coisa me dizia que o espetáculo já tinha começado. E ele falou sério, na terceira ou quarta palavra ele já tinha a atenção da praça inteira. Eu adoro esses raros momentos em que os palhaços falam sério.  Tratou as crianças como inteligentes e não como retardadas. E elas se aquietaram como que por encanto.



"E tem a razão dos inteligentes, não fala tudo que sente mas aprende palavrão" 

quarta-feira, 23 de setembro de 2015

O bom, o mau e o feio

           Seguem os trâmites aqui na pracinha Risca faca. Com 3 F's. Infelizmente não se trata de força, foco e fé, mas sim cheiro de Fossa, de Feijão e um Fedor indefinido. Tenho minha suspeitas que o fedor é de uma mulher que mora num banco atrás do  lugar que montamos o palco. Sim, ela mora ali. Quando chego de manhã ela já está ali e quando vou embora á noite ela continua ali. Só sai para ir no banheiro. Enfim, apesar do cheiro do local, dei uma chance para um restaurante chinês da praça. Um PF de yakisoba com pedaços suspeitos de gordura e ossos que recebiam o nome de carne e frango, respectivamente.. Fiquei surpreso pela quantidade de comida, tanto que achei que era a porção para duas pessoas. Tirei de dentro da mochila um par de hachis e comi como se não houvesse amanhã. Se o que engorda é a culpa, o que faz passar mal é o medo. O cozinheiro, um cearense engraçado, ficou me olhando enquanto eu comia. A impressão foi que ninguém nunca havia comido com pauzinhos no restaurante dele.

          Pela primeira vez desde que entrei no projeto, tivemos que tirar uma pessoa da platéia: Um velho com uma garrafa de cachaça gritando coisas sem nexo. Pensei em ficar brabo, mas não tinha como. ¿O que eu poderia esperar de um lugar assim.? "No centro do sertão, o que é doideira às vezes pode ser a razão mais certa e de mais juízo!

              Não vou falar das gírias daqui, com exceção de uma que ouvi e que me faz rir toda vez que passo pela placa da BR entre o hotel e a pracinha: BR 101 = briói

         Enquanto fico tomando chimarrão pensando na vida, acabo por fazer um estudo antropológico dentro da equipe de trabalho. É interessante observar como 3 forças contrárias e interdependentes ficam se balanceando e negociando entre si. Os 3 pontos desse triângulo ficam tentando se aliar com o objetivo de fazer um 2x1 com o ponto que sobrar. Mas o ego e as picuinhas do trabalho tornam essas alianças muito frágeis. O teu melhor amigo de manhã pode ser o fofoqueiro que está fazendo a tua caveira na noite do mesmo dia. Gosto de pensar que não me envolvo nisso, mas sei que não consigo ficar completamente de fora. Imparcialidade é um luxo que infelizmente não tenho aqui. Porém, sei faz muito tempo que nunca se é tão facilmente manipulado do que quando se está tentando manipular. E saber isso meio que me defende. E abro um sorriso gigantesco com as tentativas toscas de manipulação que presencio aqui. E as respostas que eu queria sobre mim mesmo vão aparecendo no tempo certo

         Falando em chimarrão. Sem erva mate e a doutrina de buda eu já teria enlouquecido. 

domingo, 20 de setembro de 2015

O pior trânsito do mundo

          Pequenas histórias da viagem entre Olinda e Itamaracá. Porque agora já lembro do rally dos sertões com uma certa nostalgia.

        Quando entrei no ônibus e vi o motora com o celular no viva voz discutindo AOS BERROS com quem eu supus ser a mulher dele  eu entendi rápido que não era uma boa ideia estar naquele ônibus. Mas não tive tempo de descer. Quando dei meia volta ainda na escada do coletivo, o motora arrancou com a porta aberta mesmo. 

          Na minha cabeça não pude deixar de fazer uma comparação. Alpinismo é muito mais fácil do que pegar uma busão em recife. Alpinismo tem o lance de ter sempre 3 pontos de apoio e no ônibus, mesmo com os dois pés e as duas mãos firmemente apoiadas, cada freada era uma aventura. Cada curva uma incerteza. Era como estar numa montanha russa no escuro, sem saber o que ia acontecer no segundo seguinte.

       Depois do bus, uma kombi, aquele tosco e irregular meio de transporte. Foi como resetar o jogo e colocar ele no modo hard. A estrada deixou de ser o inimigo. Agora todos os outros veículos perto da kombi representavam um acidente prestes a acontecer. O gritador parecia traficante de pé de favela, mas ele era ninja em mímica: xingava geral só com as mãos, usando símbolos que pra mim eram irreconhecíveis. mas que aparentemente eram entendidos por outros motoristas, que respondiam na mesma linguagem misteriosa.

          O centro histórico de Olinda é muito bonito, mas não é cativante. Igrejas igrejas por todos os lados em uma cidade velha cercada de asfalto. E sem mar por causa dos tubarões. Como se fosse um grande produto numa embalagem ruim e nada atrativa. Por entre os bonecos gigantes, eu encostava nas paredes e imaginava quanta coisa tinha acontecido naquelas ruas onde eu estava pisando.


           A noite de Olinda é engraçada. E bêbados são iguais em qualquer lugar do mundo. E existe uma relação de simbiose entre turistas e bêbados. Vi isso de camarote e participei de conversas engraçadas traduzindo "me dá um golinho " pra inglês.  No mais, a atmosfera risca faca estava lá para ser sentida nas entrelinhas das festas que íamos passando.

        No dia seguinte, tinha o ônibus pra Itamaracá. E teve traveco de barba. Teve um tiozinho com 4(quatro) galinhas vivas dentro de uma caixa. Teve uma senhora carregando as compras do mês. Tudo com as curvas insanas e a incerteza a cada freada. E é impressionante como ninguém se importa com o caos do trânsito ou com as maluquices dos coletivos.

         Praia de Itamaracá e o mar me mostrou uma série de matizes de azul como boas vindas. Estava aliviado por ver a água tranquila. Depois do que eu havia escrito na areia no último encontro, estava com um certo medo de ter que brigar com as ondas. Em vez disso, achei a praia lisa e a águas ordenadas. E pipas.. muitas pipas. A única briga que tive foi de pipas, mas conto isso outra hora. O mar perguntou dos meus pulsos e eu discuti com ele sobre cores. Eu estava em casa. Tudo no lugar. Ostras e eu lembrando do pequeno príncipe. Eu ganho pela cor do mar.

           A última kombi do fim de semana foi só pra me lembrar que a folga estava acabando e que a vida na cadeia estava de volta. 13 pessoas dentro da kombi onde 8 pessoas já viajariam apertados. E a galera cantando o refrão do funk sensação da praia "chupa a língua dela, chupa a língua dela." 

quinta-feira, 17 de setembro de 2015

Uma atmosfera riscafaca

         Estou num hotel ungido. O nome do hotel é shalom. Não posso entrar com bebidas alcoólicas nele e cada palavrão provoca uma cara feia no cara da recepção. Nas paredes mensagens edificantes sobre Deus. Aliás, considerando o número de igrejas e lugares com nomes religiosos dessa cidade, a saudação shalom é o namastê local. E quase todo mundo se chama de irmão. Eu me sinto numa maçonaria do baixo orçamento. Meu maior divertimento é ficar lendo a doutrina de buda em lugares públicos e ver as pessoas me olhando como se eu estivesse com uma revista de pornô anal na mão.

          Pelo menos, se tudo der errado na minha vida, posso me mudar pra essa cidade e começar uma pequena indústria de grades. A cada dez casas, 8 parecem uma prisão por causa de grades. E mesmo os lugares onde as pessoas deveriam circular entram nessa conta: igrejas, lancherias, padarias, farmácias e principalmente os bares risca faca. 

          O símbolo máximo desse "vida na cadeia way of life" é um lugar do lado do hotel que eu carinhosamente chamo de pracinha risca faca. O Kike chama o lugar de cariscaaf. Uns 10 botecos, um do lado do outro, todos eles com muitas grades entre vendedores e clientes.  Nessa pracinha os policiais não andam em duplas.. eles andam em grupos de dez. E os grupos ficam próximos um do outro, tipo uns dez~vinte metros. E todos com a mão na arma. A impressão é que a qualquer momento vai acontecer um tiroteio de proporções bíblicas.


       Sabe quando você vê um trecho de estrada caótico ao extremo e não consegue entender como não acontecem acidentes.? Com muita gente caminhando quase na rua e trânsito sem lógica nenhuma? Então, aqui eu faço um trecho de 8km desse jeito para ir trabalhar e para voltar pro hotel de noite. Só que aqui sempre acontece algum acidente. Estou aqui faz 5 dias e ainda não consegui fazer esse trecho sem ver uma pessoa atropelada; ou uma moto amassada ou um carro destruído. Detalhe, TODOS os motoqueiros andam sem capacete. A úncia criatura que vimos com um capacete de moto foi um piá numa bike.

         E quando vi nuvens no céu, inconscientemente estava torcendo pra chover. Acho que o nordeste faz isso com a gente. Sertão é onde o pensamento da gente se forma mais forte que o poder do lugar.

      O trabalho continua parecendo uma montanha russa. As vezes tenho conversas geniais sem dizer uma palavra, e as vezes me vejo implorando favores pra conseguir fazer o certo. É frustrante tentar argumentar com pessoas que não querem estrar certas. Elas só querem que tu estejas errado. Mas mesmo nos piores momentos.. e talvez principalmente neles, há um companheirismo estranho na nossa equipe. Como um bando de soldados que não tem mais nada e acaba se apegando um ao outro como meio de manter a sanidade.

sábado, 5 de setembro de 2015

Seguindo meus pés


        Minha última postagem dessa primeira parte da viagem, deveria ter 3 tópicos: Paragominas, o Guaraná Jesus e a Lua. Mas eu sei que vou me estender mais.

        Paragominas: Um lugar aconchegante apeliado carinhosamente de paragobalas. Sabe aquelas novelas de época com um coronel.  Imagine isso, mas tire o Antônio Fagundes e coloque o Sarney coronelando. E em vez de uma plantação de café ou alguma lavoura aleatória, com um drama sobre escravos, imagine um grande risca faca, do tamanho de uma cidade com um pseudo shopping e uma praça hexagonal no meio. MUITA GENTE feia, pessoas andando armadas, kombis e o tradicional calor pós apocalíptico. Que lugar!

      E nunca se esqueçam que existe um lugar, um único lugar na terra onde existe um refrigerante que vende mais que coca- cola, Este lugar é o Maranhão. A coisa é tão absurda que a coca comprou o guaraná jesus pra freiar o crescimento dele. E não adianta, eu nunca vou conseguir explicar como um refrigerante ruim, que tem gosto de recheio de babalu com canela, vende mais que coca. Uma solução gaseificada com cor de detergente que tem tanto sódio que chega a dar sede. Eu mesmo não entendo. Fica como sugestão de pauta para o profissão repórter.

       Vi duas luas cheias aqui no norte. Uma numa balsa entre o Pará e o Amazonas e outra lá em Estreito. Preciso dizer que todas as vezes que eu vi o sol se pondo foi emocionante. Mas quando a lua cheia surge no horizonte aqui no norte, dá vontade de ajoelhar pra agradecer melhor o espetáculo. Vermelha, e gigante, parece que ela está ao alcance da mão.

        Mais uma última coisa coisa. Estou conhecendo muitos lugares fantásticos, mas o que me toca mais são as pessoas. No meio do sertão eu vi um menino chamando um cachorrinho de baleia. Antes de pular no Amazonas uma menina chamada Antoniele me pegou pela mão pra me dar coragem. Encontrei um grupo de americanos falando russo. Um libanês me ofereceu tabaco. Lugares são lugares e eu não quero negar a energia, a beleza ou o misticismo presente em alguns pontos, mas eu ainda acho que a verdade de cada um se reflete muito mais naqueles que nos cercam na geografia do lugar. E "Sertão é isto: o senhor empurra para trás, mas de repente ele volta a rodear o senhor dos lados. Sertão é quando menos se espera. O Sertão é dentro da gente."

terça-feira, 1 de setembro de 2015

O Mad Max tupiniquim sobre duas rodas


              As vezes meu face atualiza com alguma mensagem sobre blitz na pinheiro ou "não passa nada na sinimbu". Quando eu vejo isso eu me sinto como se caxias do sul ficasse em outro planeta de tão longe. Mas aí, na mesma tarde eu recebo duas coisas que fazem com que eu me sinta em casa: um desenho feito por um autista e uma mensagem do Marcelo Pedroso no whats: "guardei o Yoshi pra vc". Tinha um yoshi de pelúcia no vagão e o Marmelo sabe quantas vezes eu pensei em roubar aquele dinossauro verde. Nunca consegui.  Não que não tivessem rolado várias oportunidades, mas roubar do único chefe que tive que não me deixava trabalhar como se ele estivesse contra mim era impensável.  E no fim, com todo o caos que fechar um bar envolve, ele lembrou de mim...Muchas muchas gracias, Jefe.




            Nunca senti tanto calor na vida quanto aqui em Estreito. A relação suor x quantidade de água que se toma torna a bexiga quase inútil. Por mais água que se tome, mijar é quase impossível. E quando soltei o primeiro bah dentro do mercado, a mulher do caixa me perguntou se eu também era de Anta Gorda.  Descobri que além do caminhão que eu vi na estrada pra cá, tem vários antagordenses na cidade. Eu preciso encontrá-los nem que seja só pra perguntar que diabos eles estão fazendo aqui.

                   É impossível ficar na rua sem que a cada cinco minutos apareça um habitante local numa bicicleta ou numa moto  - ou mesmo a pé - vendendo alguma coisa: água de coco, sucos, saladas de frutas, salgados de origem (e cor) duvidosas. Outra coisa que chama a atenção são os paredões de som. Não basta colocar  muito som nos carros, é preciso que eles fiquem empilhados e sejam grandes. Ainda não encontrei uma caminhonete sem um monte de alto falantes e cornetas na caçamba.  

                   E a quantidade de motos aqui é impressionante. Chego a pensar que aqui tem mais motos do que pessoas. E em cada quadra, umas 8 ou 9 lojas de alguma coisa relacionada com motos. Mas mesmo com toda movimentação, há um ar de cidade fantasma aqui. O mormaço faz com que eu espere ver a qualquer momento um daqueles tufos de feno rolando.

domingo, 30 de agosto de 2015

Rally dos sertões

             3 GPS diferentes no carro, era lógico que isso era prenúncio de uma tragédia.

            No começo tudo era festa. Sinal de todas as operadoras bombando, bateria quase cheia. Até um momento em que a voz do GPS titular manda dobrar a direita e sem nem mesmo perceber estávamos numa estrada digna do rally dos sertões. Cada vez que o motora conseguia engatar a terceira marcha a gente comemorava como um gol. Teoricamente seriam só 20km naquele inferno. Depois de 1 hora pra fazer aquele trecho, caímos numa estrada de chão que era melhor do que o asfalto de antes - mas não muito. Por pura teimosia e seguindo um GPS canhestro, íamos em direção ao asfalto como um náufrago nadaria em direção à terra. 

       Já estávamos no asfalto fazia uns 5 minutos quando paramos pra pra pedir informação. De repente 4 maranhenses desatam a falar e teorizar e discutir entre eles sobre o melhor caminho. Eles não chegaram em consenso nenhum e dois deles estavam realmente engajados em nos convencer sobre o melhor caminho: um deles para o leste e outro deles para o oeste. Depois e uns 15 minutos nessa situação, achamos melhor evitar o trecho descrito por um senhor banguela como "um monte de nada, jegue e quebra-molas " e tocamos para o leste. Acho que cabe aqui dizer uma informação relevante: o nosso destino ficava para oeste, Praticamente numa linha reta. Claro que isso gerou uma discussão dentro do carro também. 

            A estrada nos leva para uma cidade pequena e aparece um posto Ipiranga, piada pronta sobre parar e perguntar o caminho. Até porque a esta altura do campeonato já estava quase escurecendo e sinal de celular era um luxo que não tínhamos fazia muito tempo. Um cara olha pra nós e antes sequer de começar a explicar pede pra gente anotar. Quando ele começou a indicar o caminho com distâncias e pontos de referência muito claros, senti uma certa esperança: a estrada era boa e os índios não estavam bloqueando a rua ultimamente. -¿COMO ASSIM ÍNDIOS.? A estrada passava pelo meio de uma reserva indígena e as vezes rolava uns assaltos/pedágios ao atravessar o território deles.

         No final, não deu nada. Há uma força no universo que protege os bêbados, as crianças e os retardados. Olhando para as 5 pessoas no carro, me senti FORTEMENTE protegido. Aliás, outro adendo. Carros não foram feitos pra 5 pessoas. Pode até parecer que sim, mas na prática simplesmente não funciona. Esse foi nosso caminho final. Não consigo precisar o ponto exato, mas não posso deixar de comentar que no meio dessa trip, na parte mais escura do caminho, surge na nossa frente um caminhão de Anta Gorda -RS. Uma boa oportunidade para confirmar que gaúchos são uma peste que ainda vai dominar o mundo.



         Depois de 14 horas de viagem, chegamos a Estreito-MA, uma cidade quase no tocantins. A mesma população de Flores da Cunha sendo uma área 10x maior. Sobre o hotel em que vou passar a semana, uma imagem diz mais que mil palavras.


         A última semana antes de voltar pro sul por uns dias promete ser longa. A engenharia de a cavalo me persegue.

terça-feira, 25 de agosto de 2015

Só levo a certeza de que muito pouco sei. Ou nada sei.

        Depois de dois dias de viagem cheguei em São Luis do Maranhão. Tudo fica mais longe quando se viaja de caminhão. As pessoas aqui falam diferente, mas basicamente tudo segue igual. Continuo comendo e dormindo de forma precária e sorrindo como se não me importasse. O caminho da floresta densa rumo ao semi árido foi conforme o previsto. A umidade da floresta tornava o calor pegajoso, mas lá na amazônia as sombras eram doces e confortáveis. Aqui o sol é mais cruel e tudo com vida parece estar lutando prá sobreviver.

           Chegando no posto de gasolina tentando comprar uma garrafa pet de gasolina para limpar umas peças sujas de óleo. Depois de um tempinho com o frentista não querendo vender, o produtor saiu do carro e mandou sem hesitar: Tu sabe quem eu sou.? Sou sobrinho do Sarney. Eu queria deitar o chão pra rir enquanto o frentista chamava o gerente... que encheu a garrafa pet de gasolina sem perguntar mais nada. 

         Preciso admitir que voltei com um velho vício: esfirras do Habibs. E o Habibs é aquela coisa: de repente tu está comendo lá 2 vezes por dia 3 vezes por semana e não se dá conta. Montar o palco móvel no estacionamento de um shopping tem dessas coisas. E ter uma jornada de trabalho que começa 0630 e termina 21h não ajuda em nada.

        Pequeno parêntese em tudo. Eu tinha um trauma. Eu nunca havia terminado o Zelda do super nintendo. Não que o jogo fosse impossível, mas eu relacionava ele com uma parte do meu passado. No meio dessa minha viagem eu percebi que estava na hora de deixar mais essa parte do passado pra trás. Numa madrugada sem sono no computador eu terminei zelda, peguei o triforce (eu sempre penso em tatuar o triforce) salvei o mundo e a princesa. E deixei a Master Sword no lugar dela até ela ser necessária de novo. E acabou. Simbolicamente acabou. O passado ficou pra trás, deletei o jogo e sei que não volto mais pra esse capítulo. Fecha parênteses.


Quanto mais coisas vejo, quanto mais longe tento enxergar, mais coisas descubro sobre mim mesmo. Mais fundo enxergo naquilo que sou. O fora e o dentro continuam ligados. Assim segue a viagem. 

sexta-feira, 21 de agosto de 2015

Won't you fly high, free bird ?

          Pequenos momentos, se a gente não prestar atenção nos sinais eles passam batidos. Em um por do sol fantástico eu sinto o coração apertado. As vezes a gente quer agradecer por estar vivo e não sabe como.. Não sabe pra quem... E o shuffle do rádio manda free bird sem piedade nenhuma.Penso que existisse mesmo um Deus, ele não ia precisar de agradecimento nenhum. Só ia precisar de mais momentos assim.






              E depois encontro um libanês. Antes mesmo de ouvir a  versão dele pra primavera árabe eu já estava disposto a conhecer Beirute. Em um cachimbo ostentação eu fumo um tabaco estranho com ele... que ele só me ofereceu depois que eu deixei claro que tá tudo errado em Israel. Outro momento mágico. 






Que grande ironia essa de ter que andar 4000km para poder me sentir em casa.

terça-feira, 18 de agosto de 2015

A vingança do paraense


      Porto Alegre, setembro de 2014, eu e um paraense estamos perdidos num domingo. Acabamos no gasômetro depois de passar pela feira de negraluna local, por do sol fail com nuvens. Bancas desorganizadas e uma cerveja não muito gelada. O paraense levou aquilo pro lado pessoal.

      Bélem, agosto de 2015, o mesmo paraense me resgata do meio da favela e me leva para um open bar de cerveja artesanal com comida (boa) . E tudo de frente pra um por do sol umas 10x  mais bonito do que o do sul. Na cara dele eu vi um sorriso leve de quem ele tinha planejado aquele momento com muito esmero. No fim, depois de tomar toda cerveja que dava, ele me mostra uma sorveteria que ganhou o prêmio de melhor sorvete do brasil e aponta o sorvete de açaí. Não pensei em dizer não.

     Aqui não é a terra onde Jesus nasceu. Aqui é a terra prometida descrita no Êxodo, onde cerveja artesanal gelada e linguiça frita com cebola brotam das pedras e os garçons são simpáticos. Onde os músicos tocam led zeppelin e pearl jam em palcos suspensos. Onde o sorvete de açaí tem mais gosto de açaí do que a própria fruta.

     Sério, Pastor Aranath, não sei como te agradecer.



domingo, 16 de agosto de 2015

Um novo ritual.

        Belém. Internet descente finalmente. E uma piscina. E uma banheira no banheiro do quarto. E saber que estão me pagando pra isso. Eu sei que alguém sempre se fode, mas ao que parece dessa vez não sou eu. É engraçado voltar para um lugar com mcdonalds e onde os cruzamentos de trânsito possuem sinaleiras em vez de serem decididos na buzina. Em Juruti quando dois carros chegavam num cruzamento o que buzinava antes tinha preferência na passagem. Pelo menos foi isso que eu entendi dos dias que passei por lá. Quando pude comer num lugar que não tinha Maniçoba no cardápio, tive vontade de chorar de emoção.

          Mas voltemos para Belém, primeiro, preciso que você que está lendo crie uma imagem mental. Imagine um lixão, com rios de esgoto passando por entre ele, do lado do lixão e as vezes sobre ele coloque um assentamento irregular. Temperatura de 40 graus apodrecendo o esgoto e você pode ter uma idéia do cheiro da imagem. E gente morando ali. Ruas que lembram favelas, asfaltadas estreitas e caóticas. Barracos disformes de madeira construídos sobre o esgoto com carros novos estacionados na frente. Coloque um hotel no meio disso tudo. Essa é a periferia da cidade onde me encontro no momento. Andei quase 10 kilômetros por ruazinhas que me lembram muito as cercanias do 1º de maio em Caxias. Falei da imagem acima porque como todo gaúcho fui ensinado a ter raiva da parte de cima do país,  sem saber que aqui as coisas realmente são mais difíceis. Espero que o governo realmente continue ajudando aqui do jeito que der.

E aqui em cada esquina tem um risca faca.  E um adendo.. assim como é impossível tentar explicar o que é um bochincho pra quem não viu um, também é impossível explicar o que é um risca faca pra quem não viu. 

           Mando uma singela canção pra que pelo menos se tenha ideia da trilha sonora do mesmo. Clique por conta e risco, a música vai grudar na cabeça, já aviso.



Eu tenho uma teoria que diz que o Único Acima usa 3 coisas pra gerenciar o universo: 
O shuffle dos players de música;
Os vendedores de sonhos;
Os lugares de conexão cósmica que nós mortais conhecemos como "Bar do Miro". Não importa a cidade que você esteja, sempre haverá um bar do miro. E basta você entrar no bar para saber que está fazendo parte de algo maior. Bom, o fato é que o Miro não é tão onipresente quanto eu pensei que fosse. Aqui no norte/nordeste ele foi substituído pelo Jair. Em TODAS as cidades que eu passei encontrei um Bar do Jair.

Por fim, a piada que precisa ser feita:  Como é bom estar na terra de Jesus.





quarta-feira, 12 de agosto de 2015

Tudo como manda o figurino

          Sobre lavar roupas o ritual não tem muito mistério: Depois de trabalhar umas 10 horas por dia, chego no quarto do hotel e depois de esvaziar os bolsos entro no chuveiro com roupa e tudo. Sabão de coco na roupa e sabonete genérico na pele. Uma menção especial pro pendrive que já foi pro chuveiro duas vezes naquele bolsinho da bermuda e que continua funcionando firme e forte.

       O trabalho segue puxado, mas agora eu consigo ficar tocando ukulele nas horas vagas.. e isso faz TODA diferença. Por se falar em fazer diferença, uma professora me manda um vídeo no meio da manhã com os alunos me mandando oi. Eu queria mesmo ter palavras pra explicar como esse tipo de atitude me anima e me estimula a seguir em frente. 

         Ontem sofri um bulling severo quando tentei visitar um centro cultural aqui em Juruti. Antes de entrar uma caixa de som mal equalizada bradava músicas com temas como "Jesus, eu sou teu" ou "faz tua igraja em mim". Quando entrei, vi que era praticamente uma edificação da igreja universal. Depois de 5 minutos eu resolvi fugir pra biblioteca municipal. O problema é que na biblioteca não foi muito diferente. Cartazes com o Smilinguido e sessão de "livros ungidos". Pensei em contar a minha versão da história, aquela mesma que começa com "Tá, mas tu tá ligado que ele não morreu na cruz né.?" mas certamente eu seria linchado.

Fico cantarolando engenheiros quando o anoitecer vem como uma benção:

"O mundo é muito grande pra quem anda de avião
mas pra escreve seu destino, ele cabe na palma da mão"


segunda-feira, 10 de agosto de 2015

Um palhaço tocando ukulele me lembrou Beirut

            Achei uma pizzaria. Na verdade eu já tinha passado na frente dela umas 20 vezes, mas não dei bola por que o lugar parece uma academia em vez de um restaurante. Até agora é a única pizzaria da cidade onde não preciso brigar com os manos pra eles não colocarem o inferno em cima da pizza.

           Sinto uma falta enorme da Kali. E de tocar algum instrumento musical. Até que apareceu um ukulele. Depois das peças de teatro, eu toquei Blackbirds como se fosse a coisa mais normal do mundo. Os acordes que eu não sabia fazer eu advinhava. A intensidade nem sempre soa harmonicamente bem. Minha verdade estava ali, desafinada, fora de tempo e sem compasso definido. E a saudade me deu um hadouken no peito. Mas era um palco e eu estava sorrindo... então fiquei ali invisível tocando baixinho.

          Um palhaço me chama de Jesus. Um novo apelido e mil novas piadas. ¿E cadê meu guaraná.? Apelidos são máscaras, mas ainda acredito que se você quer saber como uma pessoa realmente é, basta deixar ela vestir uma máscara.

          E pra todo mundo que me manda mensagem dizendo que sou louco por ter abraçado essa empreitada e/ou fazendo piadinhas sobre eu não aguentar até o fim, vão assistir Sense 8 e não se preocupem comigo. Eu precisei andar 4000 km pra sentar num cordão de calçada na frente do por do sol tocando ukulele pra me sentir livre. Pra me sentir leve. Pra perceber que eu poderia fazer a mesma coisa sentado na janela do meu quarto. 


Sina estranha essa do forasteiro que precisa viajar 
pra perceber a importância do que deixou em casa.

sexta-feira, 7 de agosto de 2015

Semana I e contando

             Lá no sul há um mito interessante. O mito do gaúcho que leva o gado viajando pelo pampa e que conhece todos os caminhos e os mananciais de água boa. Aqui no amazonas há um mito parecido: O do barqueiro veterano que conhece todos os caminhos do labirinto que o rio faz quando enche. 

Essa semelhança me lembra Jayme Caetano Braum. 

"Don Atahualpa, o guitarrero, o gênio
Confúncio-pampa do fogões, profeta
Payador antigo, trovador e poeta
O perseguido patriarca do milênio"


              Os burburinhos sobre o show do colapso... digo, calypso continuam. A banda vai se hospedar no mesmo hotel que nós. Inacreditável! O plano é conseguir uma foto e um autógrafo sem precisar enfrentar o show no tribódromo


                 Hoje faz uma semana que essa empreitada começou. Mas parece que faz anos. O tempo se arrasta por causa da saudade e corre sem parar por causa do trabalho. A dualidade sempre está presente. Quando embarquei pra cá, ganhei um crachá onde se lê: "Tiago Breda - técnico". Pensei comigo que seria o Tiago e não o Vento. Tolice minha. Até os chefes já me chamam de Vento. A sina de mudar para continuar igual é assim mesmo.

                  E todo mundo tem um mestre que vive citando. Eu também tenho. Diz o mestre: - Vamo, vamo , vamo...

quarta-feira, 5 de agosto de 2015

Na guarda o guerreiro levanta a cabeça, truta..

        Uma coisa eu aprendi com o kiko: as histórias dele, mesmo sendo absurdas e non sense, sempre são verdades. Eu sei disso poque acompanhei algumas delas.  Uma vez ele me disse que tinha visto um cara consertar um catamarã com fita tape. Hoje, quando vi um carinha tirando água de uma canoa com um caneco, perguntei se ele queria que eu consertasse a canoa dele. Ele riu da minha cara e perguntou quanto eu ia cobrar. Depois que eu disse que era de graça, ele virou a canoa na areia e me mostrou por onde entrava água. Com um pano e uma lixa improvisada dei uma limpada no lugar e depois mandei fita tape sem dó. Não quis queimar, deixamos ela no sol por uns 30 minutos com 35°e depois fomos fazer o teste. Quando colocamos ela de volta na água, não entrou nenhuma gota. E os níveis de gambiarra vão subindo cada vez mais. E o cara não entendeu nada quando eu agradeci ele.

         Passei por um moleque de uns 16 anos ouvindo racionais no celular. Esse mesmo moleque estava tomando uma garrafa de cachaça na pracinha da cidade antes do meio dia. Pensei comigo "esse deve ser o vida loka local". Claro que ele me viu e fez a coisa mais certa que um vida loka poderia fazer: Me pediu um cigarro e me contou uma caminhada sem pé nem cabeça.  Falando em pracinha, vi uma coisa engraçada e triste ao mesmo tempo. Nessa vilazinha no meio da amazônia não tem internet, a não ser por um sinal de wifi da prefeitura que pega forte na praça. Então, no fim da tarde, quase noite, tem um monte de  gente na praça, todo mundo sentado perto... mas quase ninguém está conversano. Estão todos com um celular na mão. Quando eu vi essa cena tomei um choque de realidade. Mais triste do que engraçado.

        Eu devia ter trazido a arte da guerra comigo. Tenho visto muitas coisas que me lembram ele e infelizmente não são aquelas partes em que o sun tzu faz tudo certo e chuta bundas.

terça-feira, 4 de agosto de 2015

Acabou a folga

           Existem várias formas de dizer eu te amo ou simplesmente dizer que gosta de uma pessoa... tipo "você comeu bem.?" "Coloca o cinto." "Como foi o teu dia.?" Leva o guarda chuva que está chovendo." "Sinto a tua falta." Basta apenas prestar atenção, ainda mais nessa época em que dizer que ama se tornou uma coisa tão banal. Estou prestando mais atenção nesse tipo de frase agora que estou longe de tudo.


No almoço de ontem, a primeira aventura gastronômica realmente perigosa. (Na balça eu salvei o Alan da maionese). No restaurante da Dona Eldina encontramos uma comida que, por falta de descrição melhor, vou dizer apenas que parecia bosta de vaca hidratada. A descrição do modo de preparo foi muito interessante e resolvemos tentar. Infelizmente o gosto realmente parecia bosta de vaca hidratada.  

E aí teu chefe chega pra ti e fala que vai conseguir camarotes pro show do Calypso com direito a um meet and greet com a Joelma. #comofaz.?

Nota mental, preciso aprender a usar hashtags

E quando tu menos espera tem dois malucos ensaiando uma peça de teatro no teu quarto de hotel. E ser filho de Iansã não é mais certeza.

segunda-feira, 3 de agosto de 2015

O sol... ciumento e orgulhoso

         Era pra ser um rio, mas na verdade é um grande planetário. Você acha que já viu um céu estrelado.? Provavelmente ainda não viu. Estou com a via láctea inteira como teto. E mais estrelas aparecem a cada olhada. Quando a estrela cadente caiu, antes que meu cérebro pensasse qualquer coisa, o coração saiu berrando: eu desejo que ela seja feliz.

Fetiche de gaúcho: derrubei erva mate no amazonas. Estou falando bah irritantemente muito.

Estou aqui faz 3 dias e ainda não consegui tomar um Guaraná Jesus. 

Por se falar nisso: o por do sol no Guaíba ficou no chinelo.

Essa sensação de querer que todos os meus amigos aqui comigo vendo essa maravilha tem nome.??




            E todos os recordes em termos de gambiarra foram batidos nas primeiras duas horas da viagem.


domingo, 2 de agosto de 2015

Ando devagar porque já tive pressa

         Dizer que o amazonas é grande seria uma redundância, mas depois eu chego lá. 

      Dois dias atrás eu amanheci a 3800km daqui. Eu sei que tinha como chegar mais rápido, mas passar em Porto Alegre, Floripa e em Sampa antes foi bom. Em porto alegre fiz as pazes comigo e com meu passado. Em Floripa renovei as energias e em Sampa lembrei que o mundo é bem grande e que ele não vai parar ou sequer se importar se eu estou com medo ou não ou sinto falta da minha zona de conforto. 

        O vôo foi o mesmo de sempre. Fico torcendo por turbulências enquanto confirmo que as nuvens são mesmo de algodão. Dor de cabeça monstro e um calor CALOR quando desembarcamos. O aeroporto que chegamos não serviria nem pra ser rodoviária, mas era o que a casa estava oferecendo. 

      A vazão do amazonas é de um milhão de metros cúbicos por segundo. Isso significa um milhão de caixas d´água de mil litros a cada segundo. Eu não tinha conseguia imaginar o tamanho disso. Agora eu consigo e não tenho como não me sentir insignificante perto desse monte de água. E tem um mar verde ao redor do monte de água. 

       O café da manhã do hotel foi épico. Tomei suco de cupuaçu e de acerola como tomaria bacardi. A carne de tudo aqui tem um gosto estranho e eu ainda não descobri o que eles usam pra temperar. Ou mesmo do que é a carne. Aqui coca cola não tem gosto de coca cola, mas depois vou no mercado comprar um Guaraná Jesus porque eu não me importo. 

     Agora estou de folga até as 15 horas, quando começa uma viagem de 6 horas de balça subindo o tapajós. A dor de cabeça passou, mas continuo me sentindo um nada. O mundo é grande demais. E caminhar é coisa perigosa. Depois de começar é muito difícil parar. Quem viaja olha os lugares com uma certa necessidade, com uma certa urgência. Como se soubesse que há muito parar ver, muito parar aprender e o tempo sempre é insuficiente. Me olhei no espelho essa manhã e vi esse mesmo olhar. 

Pra amenizar a saudade: chimarrão ao som de blackbirds sentado na orla do tapajós.


quinta-feira, 30 de julho de 2015

Orgulhosamente juntos.


                 Colocando roupas e ideias dentro da mochila. Sacudindo orgulhoso as asas que estavam amarradas e machucadas. Pedi desculpas pro Tempo e o Vento, mas levo comigo o grande sertão: veredas. Achei que ir embora era uma fuga, mas na verdade é uma busca. Vou lá me encontrar.  Vou lá conhecer o mundo como ele é em vez de como eu penso que ele é.  Deixo um pedaço de mim aqui e levo um palhaço; pra não esquecer do sorriso e lembrar sempre que o espetáculo não pode parar. Esse pressentimento de caos misturado com vontade me fazem bem. 

                  Quando a ordem da mudança vem, a gente muda. 




terça-feira, 28 de julho de 2015

Amordaçado ninguém vai sorrir

             As vezes é difícil saber quando um ciclo termina e outro começa. A mudança vem trançada em coisas que estamos acostumados a ver sempre iguais. E por tanto olhar pras mesmas coisas acabamos não prestando mais atenções nelas. Mas aí um pequeno detalhe, uma palavra perdida ou uma atitude diferente e nada mais é como costumava ser. E então mudamos para continuarmos iguais. Sem ninguém remando para trás o barco navega melhor.  Ou a gente se dá bem juntos, ou a tempestade afoga a todos enquanto a gente tenta se salvar. Defino amizade assim, pelo menos. E certamente não preciso de ninguém me criticando porque sei nadar bem.

               A gente aceita o amor que acredita merecer. Mesmo tendo aprendido isso, não me acho bom e não parou de doer. Meus cães de guarda continuam aqui, fiéis e ferozes. E permanecem inúteis pra me defender de mim mesmo enquanto me defendem do resto. Quase me afoguei na minha própria merda antes de perceber que não poderia lutar contra a mudança. Mas cansei de me contentar com migalhas. Sigo em frente. ¿Quer saber.? O abismo não parece nem um pouco assustador porque não me sinto mais sozinho. Na minha arrogância achei que aguentava mais do que é possível aguentar. Ainda mais sozinho.  Vou embora porque preciso, mas meu tesouro fica aqui. 

                  E caminhar sempre é perigoso, depois de dar o primeiro passo, a gente não tem como saber onde o caminho vai nos levar. Mas mesmo que eu não saiba onde vou parar, eu sei que não ando sozinho. E sei que tenho pra onde voltar. Pra quem voltar.

quinta-feira, 23 de julho de 2015

A satisfação não vem à toa... vem junto raiva, ódio e paixão

São madrugadas estranhas essas que passo lendo Frederico e ouvindo Blackbirds. 


segunda-feira, 20 de julho de 2015

Uma D.R. com ares de karaokê

              O inferno acontecendo e eu gerenciando TODO os caos possível ao mesmo tempo. Só conseguia pensar. "bom, aqui eu me viro, aqui estou em casa". E com calma eu organizava cada pensamento como uma peça e uma casa. Perdi a conta de quantas discussões iam acontecendo dentro de mim enquanto na superfície tudo era serenidade. Tive ajuda, um palhaço com uma lata de cola. Não importa a pergunta, cola é a resposta. Nós fomos um achado um para o outro. E minha senhora, que tava parecendo a própria Afrodite de tanto amor. 

                 Traição é golpe que vem de onde não se espera. Surpresa. Eu já esperava. Minha dor e meu desprezo por mim mesmo montam guarda e me defendem. E leio as pessoas. E me defendo batendo. Um sorriso permanente não significa que não sinto raiva.

                   No fim ganhei muitas histórias pra contar e um sorriso que encaixa no meu. Muito mais do que eu mereço mas exatamente o que preciso.

                    Ah, Chuva, quero mais. Não foi pra coisas pequenas que nos encontramos dessa vez. Não atravesso abismos dando pulinhos. Não vou terminar um ciclo e começar outro com uma garoa.

                        Comecei a ler o tempo e o vento de novo. Dessa vez sem tocos de vela.

"Uma geração vai e outra geração vem; 
porém a terra pra sempre permanece.
E nasce o sol e põe-se o sol,
e volta ao seu lugar donde nasceu.
O vento vai para o sul, e faz o seu giro
para o norte; continuamente vai girando
o vento, e volta fazendo seus circuitos."
                                  - Eclesiastes I, 4-6

domingo, 12 de julho de 2015

Pelo crime e castigo



Ou: Uma noite no RH

Como explicar o inexplicável.? Como definir com palavras pequenas decisões que depois percebemos que acabam por mudar tudo.?  

Sempre que meu mundo desaba vem uma mulher, me ergue pela mão e me coloca nos trilhos de novo. Eu trabalho com uma delas. E ela nem deve desconfiar de quanto me ajudou num momento em que eu precisei. E o incrível é que ela não precisou fazer nada demais. Ela foi ela mesma e isso foi suficiente. Nas noites em que o bar era um inferno pra mim, ela passava do meu lado sorrindo e tudo mudava. Tantas histórias, tantos tombos. Ela também tinha os seus demônios pra exorcizar.  Ainda assim ela conseguia sorrir. E ela tinha tantos amigos, aqueles de verdade. E eu fui aprendendo que não ia adiantar ficar sozinho. Que não importava o que acontecesse, se eu tivesse amigos de verdade, nunca iria me faltar nada. E a gente foi ficando amigo. E eu comecei a sorrir também. 

Quem acha que trabalhar num bar é fácil não sabe o que está falando. É bom, quase sempre muito bom, mas dá muito trabalho. O equilíbrio é precário entre trabalhar e se divertir, beber e se preservar, se envolver e deixar pra lá. Eu lembro que tentei chegar perto demais e que isso iria balançar demais o equilíbrio, mas parece que não era pra ser e nunca nos envolvemos. E com essa distância segura entre nós, a gente trabalha melhor juntos. Somos cúmplices de alguns pequenos delitos e companheiros de grandes empreitadas. Do meu canto eu vejo ela fazendo o melhor que pode. E desconfio que ela também me vê. E todo trabalho fica mais leve porque sei que não estou trabalhando sozinho. 

sexta-feira, 10 de julho de 2015

quarta-feira, 8 de julho de 2015

No more



                Eu precisei de dez temporadas pra ouvir uma música que tocou incontáveis vezes.  Poderia teorizar sobre as coisas acontecerem quando tem que acontecer. Mas só me sinto um idiota surdo.  

segunda-feira, 6 de julho de 2015

Quase todos



...eu perdi.

quarta-feira, 1 de julho de 2015

Ser ninguém poderia ser mais fácil

        Há uma rua onde eu falo com os anjos. Nas madrugadas eu saio pra caminhar e sem perceber vou pra lá. 

         - Eu sei bem que a gente trabalha juntos e que o único acima tem um plano. Mas não adianta reclamar que a gente não conhece todo o plano. Seria impossível explicar pra todos. Cada um de nós vê o mundo de um ponto de vista diferente. Como eu poderia dizer pro mar que vou vê-lo perto do meu aniversário se ele não conta dias. Poderia dizer que vou vê-lo quando o vento sopra gelado do sul e os dias estão ficando pequenos. São conceitos suficientemente universais para qualquer mortal. Mas ainda assim ele me olha com uma certa surpresa quando me vê, como se não lembrasse de mim. ¿ E tu? Não posso te pedir pra me acordar as 9 horas. Tu não tem idéia do que seja 9 horas. Mas se eu te peço pra me acordar quando o sol está na metade do caminho entre o horizonte e o topo do céu, tu entende o que eu quero dizer. Conversamos tantas vezes e não sei se o barulho que tu faz quando senta na minha janela é das tuas asas. Como poderia dizer que meu peito dói de saudade para alguém que não sabe o que é dor e nem o que é saudade. Como resumir dentro da palavra coincidência todo trabalho que dá pra colocar as coisas nos seu devido lugar na hora certa.


         E todo mundo trabalha junto, mas ninguém sabe do todo. E nem todo mundo acredita. È um trabalho. Bom as vezes e ruim as vezes. Com ou sem fé, com ou sem esperança, sendo pago ou não... ele precisa ser feito.